O marido passou tudo para o nome da sogra às escondidas da esposa, mas não esperava o que acabaria por receber.

Tânia estava junto da caixa do correio a folhear os papéis. Alguns avisos, recibos, publicidade. E isto… o que é?
Um extrato do registo predial em nome da sogra. Estranho. Para que precisaria Galina Ivanovna de documentos relativos ao apartamento deles?
Ela releu a morada duas vezes. A morada deles. O apartamento deles. Mas o proprietário agora era — Galina Ivanovna Smirnova.
— Sacha! Vem cá!
Alexandre saiu do quarto.
— O que foi?
— O que é isto? — Tânia estendeu-lhe o documento.
Sacha olhou para o papel. O seu rosto não se alterou.
— Ah… isso… — hesitou. — A mãe pediu para passar tudo para o nome dela.
— Como assim, “passar”? Este é o nosso apartamento!
— Tânia, não grites. Os vizinhos vão ouvir.
— Estou-me a lixar para os vizinhos! Explica-me o que se passa!
Sacha foi para a cozinha e sentou-se à mesa. Tânia foi atrás dele.
— Percebes… já não somos novos. Pode acontecer qualquer coisa. Doenças, problemas…
— Que problemas?
— Bem… se, de repente, a nossa relação piorar. Hoje em dia os divórcios são complicados. Divisão de bens, tribunais… Assim fica tudo mais tranquilo.
— Quarenta anos juntos, Sacha. E tu pensas em divórcio?
— Só me quis precaver.
— De mim? Da tua mulher?
Sacha ficou em silêncio.
— E a casa de campo? Também ficou em nome da tua mãezinha?
— Tânia…
— Responde!
— Sim, a casa de campo também.
Tânia sentou-se numa cadeira. As mãos tremiam.
— Quando?
— Há um mês. Talvez há mês e meio.
— E não me disseste nada?
— Para quê aborrecer-te? Tu percebes… é só uma formalidade. A mãe não nos vai pôr na rua.
— Formalidade? — a voz de Tânia falhou. — Eu investi trinta anos neste apartamento!
Fiz obras, comprei móveis! Ia todos os fins de semana para a casa de campo, cavava os canteiros!
— Ninguém te está a tirar nada.
— Como não está? Eu já não tenho casa!
— Tens casa, sim. Só que os documentos… por precaução.
Tânia levantou-se e foi até à janela. No pátio, as crianças brincavam. Uma noite normal, uma vida normal. Mas o mundo dela tinha desabado.
— Traíste-me, Sacha.
— Não digas disparates.
— Quarenta anos! Dei-te uma filha, tomei conta dos netos, cuidei de ti! E o que recebi em troca?
— Recebeste uma família, uma casa…
— Que casa? Uma casa que não é minha!
Sacha levantou-se e aproximou-se dela.
— Tânia, acalma-te. Estás a perceber tudo mal.
— E como é que se percebe bem? O marido passou todo o património, às escondidas, para o nome da mãe!
— Simplesmente não achei necessário…
Tânia virou-se para ele.
— Não achaste necessário avisar a tua mulher!
— A mãe disse que assim seria melhor.
— E eu? Não sou ninguém?
Sacha ficou calado.
Tânia olhava para ele e já não o reconhecia. Este homem tinha partilhado a cama com ela durante quarenta anos. Este homem jurara amor, prometera estar sempre ao seu lado.
E agora estava ali, à sua frente, a explicar por que decidiu proteger-se… dela.
— Vai para a tua mãe — disse ela em voz baixa.
— Tânia…
— Vai. E hoje não te aproximes de mim.
Sacha ficou ali mais um pouco e depois foi para o quarto. Tânia ficou sozinha na cozinha. Ainda tinha nas mãos o extrato do registo predial. Um nome estranho no lugar do seu.
Tânia não dormiu a noite inteira. Virava-se de um lado para o outro. Como é que isto pôde acontecer? De manhã levantou-se exausta, com os olhos vermelhos.
Sacha saiu para o trabalho sem sequer se despedir. Como se nada tivesse acontecido. E por dentro, nela, tudo ardia.
À hora de almoço, ligou à filha.
— Ólia, podes vir cá?
— Mãe, o que se passa? A tua voz está estranha.
— Vem. Depois falamos.
Olga chegou uma hora depois. Tânia contou-lhe tudo. A filha escutava de boca aberta.
— Mãe, estás a falar a sério?
— Aqui está o documento. Lê tu mesma.
Olga pegou no papel e passou os olhos rapidamente.
— Mas isto é… é o teu apartamento! Viveste aí a vida toda!
— Agora é da avó.
— Mãe, e o pai, o que diz?
— O que é que ele pode dizer? Protegeu-se da mulher. Para o caso de ser preciso.
Olga ficou em silêncio.
— Mãe, eu já tinha reparado há algum tempo. Ele anda estranho. Sempre cheio de segredos.
— Em que sentido?
— Esconde o telemóvel, guarda papéis na gaveta. E quando pergunto, despacha-me.
Tânia suspirou. Afinal, não era só impressão dela.
— E agora, o que é que eu faço?
— Não sei, mãe. Talvez falar com um advogado?
— Com que dinheiro? Nós não temos dinheiro a mais.
— Mãe, arranja-se. É um direito teu.
À noite, Sacha chegou a casa. Durante o jantar, ficaram em silêncio. Por fim, Tânia não aguentou:
— Sacha, e se a tua mãe decidir expulsar-nos?
— Porque é que nos haveria de expulsar?
— Sei lá… pode querer.
— Não vai querer. Somos família.
— Eu não sou família dela.
Sacha levantou os olhos.
— Como não és família? Vivemos juntos há quarenta anos.
— Para ela, eu sou uma estranha. Sempre fui.
— Não digas disparates.
— Lembras-te do que ela dizia do meu borscht? Que eu tinha as mãos tortas?
— A mãe é assim. É direta.
— Direta! E no casamento da Ólia? Andava a dizer a toda a gente como a neta era bonita. E de mim, nem uma palavra. Como se eu não existisse.
Sacha ficou calado.
— Sacha, eu tenho medo.
— Medo de quê?
— De ficar na rua.
— Estás a dizer disparates.
No dia seguinte, Galina Ivanovna veio fazer uma visita. Tânia estava a preparar o almoço e ouvia a sogra a falar com o filho no quarto.
— Fizeste muito bem, Sacha — dizia a velha. — As mulheres hoje em dia estão muito atrevidas. Correm logo para os tribunais e ficam com os bens.
— Mãe, a Tânia não é assim.
— São todas. Hás de ver.
— Ela ficou muito abalada.
— E porquê? Vai viver no mesmo sítio, comer a mesma coisa. Só vai passar a saber que nada daquilo é dela.
— Mãe…
— O quê, mãe? Cada mulher tem de saber qual é o seu lugar. Agora vêm para aqui umas quaisquer e pensam que são as donas da casa.
Tânia deixou cair a concha. “Vieram para aqui”? Quarenta anos nesta família… e era uma forasteira?
— Mãe, não fales assim.
— E como queres que fale? Ela, na verdade, não é tua família. Divorciam-se e pronto. E o apartamento fica na família.
Tânia saiu da cozinha.
— Galina Ivanovna, eu ouvi tudo.
A velha não se perturbou.
— E então?
— “Vim para aqui”? Eu vivo aqui há quarenta anos!
— E depois? Casar não quer dizer que passes a ser a dona.
— Mãe! — repreendeu-a Sacha.
— O quê, mãe? Estou a dizer a verdade. Enquanto o meu filho for vivo, ela é visita. Se ele morrer, já nem visita é.
As faces de Tânia ardiam.
— Então, para si eu não sou ninguém?
— E quem havias de ser? Uma mulher estranha.
— Mãe, chega! — Sacha levantou-se.
— Não chega nada. Eu faço o que quiser com os meus bens.
Tânia olhou para o marido. Não a defendia. Ao fim de quarenta anos, não defendia a própria mulher.
— Percebi.
Passou uma semana. E Tânia não conseguiu entrar no apartamento. A chave não abria.
A vizinha, a dona Klava, espreitou.
— Tânia, o que se passa aí? De manhã veio um serralheiro. Mudou as fechaduras.
Tudo ficou escuro diante dos olhos de Tânia.
— Como assim?
— Disse que foi a proprietária que mandou.
Tânia ligou para Sacha. Não atendia. Tentou outra vez. Nada.
— Dona Klava, o Sacha está em casa?
— Não sei, querida. Não o vi desde de manhã.
Tânia desceu ao pátio e sentou-se num banco. As mãos tremiam. Será que a estavam mesmo a expulsar? Do seu próprio apartamento?
Ligou à Olga.
— Ólia, puseram-me fora de casa.
— Como assim, puseram-te fora?
— Mudaram as fechaduras. Não consigo entrar.
— Mãe, onde estás?
— Estou no pátio.
— Já vou aí.
Olga chegou meia hora depois.
— Mãe, isto é sequer legal?
— Não sei. Os documentos agora estão no nome dela.
— Mas tu estás registada aí!
— E quem é que se importa com isso?
A filha subiu até ao apartamento e tocou à campainha durante muito tempo. Finalmente, Galina Ivanovna abriu a porta.
— Avó, o que se passa?
— O que se passa? Estou a pôr ordem na casa.
— E onde é que a mãe vai viver?
— Não é problema meu. Que alugue um apartamento.
— Avó, esta é a casa dela!
— Não é dela coisa nenhuma. É a minha casa. Aqui estão os documentos.
A velha abanou os papéis.
— E o pai, onde está?
— No quarto dele. Está muito nervoso.
— Chame-o, por favor.
— Não chamo. Já está perturbado que chegue. Para quê piorar?
Olga desceu para junto da mãe.
— Mãe, ela enlouqueceu de vez.
— E o teu pai?
— Está fechado no quarto. Nem atende o telefone.
Tânia esboçou um sorriso amargo.
— Um cobarde. Sempre foi um cobarde.
— Mãe, vem viver comigo.
— Para onde, Ólia? Tu tens um T1.
— E então? A gente arranja-se.
— Ólia, eu não posso. Esta é a minha casa. Vivi aqui toda a vida.
— Mãe, mas o que é que fazemos agora?
Tânia levantou-se do banco.
— Sabes que mais? Chega. Aguentei esta velha bruxa durante quarenta anos. Basta.
— Mãe…
— Vamos ao advogado teu conhecido.
— Ao Denis? Mas ele é especialista em divórcios.
— Melhor ainda. Tratamos já do divórcio.
— Mãe, estás a falar a sério?
— Mais a sério é impossível. Se para eles eu sou uma estranha, então vou ser mesmo uma estranha.
Foram ter com Denis. Um rapaz novo, amigo da Olga desde a universidade.
— Tia Tânia, a situação é complicada, mas não é sem esperança. Vamos tentar anular a doação. Afinal, os bens foram adquiridos durante o casamento.


— E que hipóteses há?
— Se provarmos que o seu marido agiu sem o consentimento da esposa, são boas.
— E quanto é que isso custa?
— Para a Olga, o mínimo. Uns trinta mil rublos para taxas e peritagens.
Tânia ficou a pensar. Não tinha esse dinheiro.
— Mãe, eu pago — disse Olga. — Tenho algum dinheiro poupado.
— Ólia, é o teu dinheiro…
— Mãe, eu não te vou deixar sozinha.
À noite, Sacha acabou por ligar.
— Tânia, onde estás?
— E a ti, que te importa?
— Como assim, que me importa? Tu és a minha mulher.
— Fui tua mulher. Agora sou uma “mulher estranha”, como disse a tua mãezinha.
— Tânia, não digas disparates. Volta para casa.
— Para que casa? Fui expulsa de lá.
— A mãe exaltou-se…
— A mãe? E tu, onde estavas? Porque não me defendeste?
Sacha ficou em silêncio.
— Pois — disse Tânia. — Amanhã vou dar entrada no divórcio.
— Tânia, não faças asneiras!
— Asneira já eu fiz. Vivi quarenta anos contigo.
Desligou o telefone. Olga abraçou-a pelos ombros.
— Mãe, vai correr tudo bem.
— Vai — disse Tânia com firmeza. — Vai mesmo.
O processo durou três meses. Denis revelou-se competente: reuniu todos os documentos e provou que Sacha agira sem o consentimento da mulher. A juíza era uma mulher de cerca de cinquenta anos. Provavelmente compreendia bem a situação.
— A doação é declarada nula — anunciou no último dia. — E os bens regressam ao regime de propriedade comum do casal.
Tânia estava sentada na sala e não acreditava. Ganhara. Tinha mesmo ganho.
Galina Ivanovna saía do tribunal apoiada numa bengala. Envelhecera durante aqueles meses, ficara curvada. Sacha arrastava-se ao seu lado.
— Tânia! — chamou ele. — Espera!
Tânia parou.
— O que queres?
— Pronto, o julgamento acabou. Podes voltar para casa.
— Para que casa?
— Como assim, para que casa? Para a nossa.
— A minha casa é onde vivo com a minha filha. Para junto de ti eu não volto.
— Tânia, estás louca? Vivemos juntos quarenta anos!
— Vivemos. E então?
Sacha olhava para ela, perdido.
— Eu… eu não pensei que fosse acabar assim…
— E como é que pensavas? Que eu ia passar a vida inteira a engolir humilhações?
— Que humilhações? A mãe só…
— Sacha, chega. Acabou tudo.
Tânia virou-se e caminhou para a saída. Olga alcançou-a.
— Mãe, e agora?
— Agora vendemos o apartamento e a casa de campo. Metade para o teu pai, metade para mim.
— E ele vai aceitar?
— Vai ter de aceitar. A decisão do tribunal é a decisão do tribunal.
Um mês depois, o apartamento foi vendido. Sacha resistiu no início, mas acabou por aceitar. Não tinha alternativa.
— Mãe, comprei-te um T1 perto de mim — contou Olga. — É pequeno, mas acolhedor.
— Ólia, para quê gastar dinheiro? Eu podia ter ficado contigo.
— Mãe, tu tens de ter a tua própria casa. A tua casa de verdade.
O novo apartamento era minúsculo — trinta metros quadrados. Mas era seu. Tânia pendurou na parede os documentos de propriedade. Que ficassem bem à vista.
Na primeira noite, sentou-se na cozinha, bebeu chá e pensou. Silêncio. Ninguém resmunga porque a sopa está salgada. Ninguém exige mudar de canal. Um paraíso.
A filha ligou.
— Mãe, como estás?
— Bem. A beber chá.
— Não te sentes sozinha?
— Sozinha porquê? Para ter saudades de ser chamada de mulher estranha pela sogra?
— Mãe, o pai ligou?
— Ligou. Pediu para eu voltar.
— E tu?
— Disse que já era tarde.
— Mãe, não te custa? Afinal, quarenta anos…
Tânia ficou em silêncio por um momento.
— Sabes, Ólia, no início achei que custava. Depois percebi que tenho pena é do tempo que desperdicei.
— Mãe…
— Quarenta anos a servir, a aguentar humilhações. Para quê? Para acabar na rua na velhice?
— Mas não na rua…
— Ólia, se tu não me tivesses ajudado, era exatamente isso que teria acontecido. O teu pai não mexeu um dedo para me defender.
A filha suspirou.
— Mãe, e agora o que vais fazer?
— Vou viver. Viver para mim.
— E o trabalho?
— No trabalho corre bem. As colegas apoiam-me. Dizem que fiz muito bem em não aguentar mais.
— Mãe, e não vais sentir solidão?
Tânia olhou em volta. Cozinha pequena, mas era a sua cozinha. Ninguém lhe diz o que cozinhar. Ninguém a critica.
— Não, Ólia. Não vou sentir solidão.
Meio ano depois, Sacha mudou-se para o antigo T2 da mãe. Galina Ivanovna envelheceu rapidamente — os nervos não aguentaram, ao que parecia. O filho cuidava dela, cozinhava, comprava os medicamentos.
— Mãe, o pai anda exausto — contava Olga. — A avó atormenta-o do princípio ao fim do dia.
— Foi ele que escolheu — respondia Tânia. — Escolheu a mamã.
E, em segredo, pensava: está certo. Que agora sinta na pele como é ser criado.
Tânia recomeçou a sua vida. Inscreveu-se num curso de inglês, passou a ir ao teatro com colegas de trabalho. Comprou um vestido bonito — pela primeira vez em muitos anos, não pediu autorização a ninguém.
À noite, sentava-se na sua pequena cozinha, bebia chá e saboreava o silêncio. Ninguém jamais voltaria a dizer-lhe que ali era uma estranha. Porque agora ela sabia com toda a certeza:
— Ao Denis? Mas ele é especialista em divórcios.
— Melhor ainda. Aproveitamos e tratamos já do divórcio.
— Mãe, estás a falar a sério?
— Mais do que a sério. Se para eles eu sou uma estranha, então vou ser mesmo uma estranha.
Foram ter com o Denis. Um rapaz novo, amigo da Ólia desde a universidade.
— Tia Tânia, a situação é complicada, mas não é sem esperança. Vamos tentar declarar a doação nula.
Afinal, os bens foram adquiridos durante o casamento.
— E que hipóteses há?
— Se conseguirmos provar que o marido agiu às escondidas da esposa, são boas.
— E quanto é que isso custa?
— Para a Ólia, faço pelo mínimo. Uns trinta mil rublos para taxas judiciais e perícias.
Tânia ficou pensativa. Não tinha esse dinheiro.
— Mãe, eu pago — disse a Olga. — Tenho algum dinheiro poupado.
— Ólia, é o teu dinheiro…
— Mãe, eu não te vou deixar desamparada.
À noite, o Sacha acabou por ligar.
— Tânia, onde estás?
— E a ti, que te importa?
— Como assim, que me importa? Tu és a minha mulher.
— Fui tua mulher. Agora sou uma “mulher estranha”, como disse a tua mãezinha.
— Tânia, não digas disparates. Volta para casa.
— Para que casa? Eu fui expulsa de lá.
— A mãe exaltou-se…
— A mãe? E tu, onde estavas? Porque não me defendeste?
Sacha ficou em silêncio.
— Pois — disse Tânia. — Amanhã vou dar entrada no divórcio.
— Tânia, não faças asneiras!
— Asneira eu já fiz. Vivi quarenta anos contigo.
Ela desligou o telefone. A Olga abraçou-a pelos ombros.
— Mãe, vai correr tudo bem.
— Vai — disse Tânia com firmeza. — Vai mesmo.
O processo durou três meses. O Denis revelou-se competente: reuniu todos os documentos e provou que o Sacha tinha agido sem o consentimento da esposa. A juíza era uma mulher de cerca de cinquenta anos. Ao que tudo indica, compreendia bem a situação.
— A doação é declarada nula — anunciou ela no último dia. — E os bens são restituídos ao regime de propriedade comum dos cônjuges.
Tânia estava sentada na sala de audiências e não acreditava. Tinha ganho. Tinha mesmo ganho.
Galina Ivanovna saía do edifício do tribunal, apoiada numa bengala. Envelhecera durante aqueles meses, ficara curvada. O Sacha arrastava-se ao seu lado.
— Tânia! — chamou ele a mulher. — Espera!
Tânia parou.
— O que queres?
— Pronto, o julgamento acabou. Já podes voltar para casa.
— Para que casa?
— Como assim, para que casa? Para a nossa.
— A minha casa é onde eu vivo com a minha filha. Para junto de ti eu não volto.
— Tânia, estás louca? Vivemos juntos quarenta anos!
— Vivemos. E então?
O Sacha olhava para ela, perdido.
— Mas eu… eu não pensei que fosse acabar assim…
— E como é que pensavas? Que eu ia passar a vida inteira a suportar humilhações?
— Que humilhações? A mãe só…
— Sacha, chega. Acabou tudo.
Tânia virou-se e seguiu para a saída. A Olga alcançou-a.
— Mãe, e agora?
— Agora vendemos o apartamento e a casa de campo. Metade para o teu pai, metade para mim.
— E ele vai aceitar?
— E que alternativa tem? Uma decisão judicial é uma decisão judicial.
Um mês depois, o apartamento foi vendido. O Sacha resistiu no início, mas acabou por aceitar. Não havia outra saída.
— Mãe, comprei-te um T1 perto de mim — contou a Olga. — É pequeno, mas acolhedor.
— Ólia, para quê gastar dinheiro? Eu podia ter ficado contigo.
— Mãe, tu tens de ter a tua própria casa. A tua casa de verdade.
O novo apartamento era minúsculo — trinta metros quadrados. Mas era seu. A Tânia pendurou na parede os documentos de propriedade. Que ficassem bem à vista.
Na primeira noite, sentou-se na cozinha, bebeu chá e ficou a pensar. Silêncio. Ninguém resmunga porque a sopa ficou salgada. Ninguém exige mudar de canal. Um luxo.
A filha ligou.



— Mãe, como estás?
— Bem. A beber chá.
— Não tens saudades?
— Saudades de quê? De ouvir a sogra chamar-me “mulher estranha”?
— Mãe, o pai ligou?
— Ligou. Pediu para eu voltar.
— E tu?
— E eu disse que já era tarde.
— Mãe, não te custa? Afinal, quarenta anos…
Tânia ficou em silêncio por um instante.
— Sabes, Ólia, no início achei que custava. Depois percebi que tenho pena é do tempo que desperdicei.
— Mãe…
— Quarenta anos a servir, a suportar humilhações. Para quê? Para acabar na rua na velhice?
— Mas não na rua…
— Ólia, se tu não me tivesses ajudado, teria sido exatamente isso. O teu pai não mexeu um dedo para me defender.
A filha suspirou.
— Mãe, e agora, o que vais fazer?
— Vou viver. Viver para mim.
— E o trabalho?
— No trabalho está tudo bem. As colegas apoiam-me. Dizem que fiz muito bem em não aguentar mais.
— Mãe, e não vais sentir-te sozinha?
Tânia olhou em volta. Uma cozinha pequena, mas era a sua cozinha. Ninguém lhe diz o que cozinhar. Ninguém a critica.
— Não, Ólia. Não vou sentir-me sozinha.
Meio ano depois, o Sacha mudou-se para o antigo T2 da mãe. A Galina Ivanovna envelheceu rapidamente — ao que parecia, os nervos não aguentaram. O filho cuidava dela, cozinhava, comprava os medicamentos.
— Mãe, o pai anda exausto — contava a Olga. — A avó atormenta-o do princípio ao fim do dia.
— Foi ele que escolheu — respondia a Tânia. — Escolheu a mamã.
E, em segredo, pensava: está certo. Que agora sinta na própria pele como é ser criada de servir.
Tânia refez a sua vida. Inscreveu-se num curso de inglês, começou a ir ao teatro com colegas de trabalho. Comprou um vestido bonito — pela primeira vez em muitos anos, não pediu autorização a ninguém.
À noite, sentava-se na sua pequena cozinha, bebia chá e saboreava o silêncio. Ninguém voltaria a dizer-lhe que ali ela era uma estranha. Porque agora ela sabia com toda a certeza: a sua casa é onde é respeitada.
