— Amanhã não vás trabalhar. Acredita em mim e fica em casa! — avisou-me a vizinha, a tremer de medo.

Ouviu-se uma batida na porta exatamente à meia-noite. Eu sabia-o com certeza, porque acabara de verificar o telemóvel. Mais uma vez não conseguia adormecer; já há quase uma hora que me virava na cama, a pensar na reunião de planeamento de amanhã.
Ao início decidi não abrir. Quem é que aparece a esta hora? Mas a batida repetiu-se. Insistente, mas não agressiva. Mais desesperada do que outra coisa.
— Liza, sou eu, a Katia. Abre, por favor.
A vizinha do quinto andar…
Cumprimentávamo-nos no elevador, às vezes trocávamos duas palavras sobre o tempo ou sobre obras no prédio, mas não éramos próximas. Era uma moscovita comum de trinta e tal anos, sempre apressada, com o telemóvel encostado ao ouvido. Trabalhava, ao que parecia, numa empresa de TI qualquer.
Vesti um roupão por cima e abri a porta. A Katia estava em pijama e chinelos, despenteada, com os olhos vermelhos. Nas mãos apertava o telemóvel com nervosismo.
— Desculpa ter-te acordado — começou ela, sem sequer esperar que eu a convidasse a entrar. — Eu sei como isto parece, mas preciso de te dizer uma coisa. Uma coisa muito importante.
— O que aconteceu? — deixei-a entrar no hall. — Pareces que viste um fantasma.
— Amanhã não vás trabalhar — disparou a Katia, a olhar-me diretamente nos olhos. — Acredita em mim e fica em casa!
Pisquéi os olhos. Era a última coisa que eu esperava ouvir.
— O quê? Katia, estás bem? Queres que chame um médico?
— Eu estou bem, é só que… — ela engoliu em seco, ainda a tremer. — Vais perceber mais perto da hora de almoço. Liza, é a sério. Amanhã não saias de casa. Nem por um minuto. Diz que estás doente, inventa o que quiseres, mas não vás trabalhar.
Ficámos uma em frente à outra no corredor estreito, e foi a primeira vez que vi bem a vizinha. Normalmente parecia muito calma. Agora estava perdida e assustada.
— Porque é que me estás a dizer isso? — perguntei. — Nós mal nos conhecemos.
— Porque… — a Katia hesitou e esfregou a testa, nervosa. — Porque tem de ser. Tu és uma boa pessoa. Tens sempre aquele sorriso no elevador e, uma vez, ajudaste-me a levar os sacos quando eu tinha comprado compras para a semana toda. Lembras-te? Há uns dois meses.
Eu lembrava-me vagamente. O elevador avariou, subimos pelas escadas, e ela levava sacos enormes cheios de comida. Eu só fiz a cortesia normal de vizinha.
— Katia, explica como deve ser. O que é que vai acontecer amanhã?
Ela abanou a cabeça:
— Não posso. Mas acredita em mim, por favor. Fica só em casa. E amanhã à noite, se quiseres, passa lá por casa. Conto-te tudo.
— Percebes como isso soa? Amanhã tenho uma reunião importante, preparei-me durante três semanas. Um projeto novo, um orçamento grande…
— Liza! — a Katia agarrou-me na mão; os dedos dela estavam gelados. — Eu imploro-te!
Ficámos caladas alguns segundos. Eu observava-lhe o rosto, a tentar perceber com o que estava a lidar. Um esgotamento nervoso? Um problema psicológico? Ou ela sabia mesmo alguma coisa que eu não sabia?
— Está bem — disse eu, por fim. — Vou tentar.
A Katia respirou de alívio:
— Obrigada. A sério, muito obrigada.
A vizinha virou-se e foi para a porta:
— E não saias de casa mesmo. Até à noite. Prometes?
— Prometo tentar.
Depois de a Katia ir embora, ainda demorei muito tempo a adormecer. Virava-me na cama, a rever na cabeça as palavras e o olhar dela.
O que é que ela podia saber que eu não sabia? Talvez a empresa estivesse a planear despedimentos? Mas o que tinha isso a ver com “não saias de casa de todo”?
Às seis da manhã, como sempre, o despertador tocou.
Levantei-me, fiz café e sentei-me a tomar o pequeno-almoço. De repente dei por mim a olhar constantemente para o telemóvel. A ansiedade não me largava.
Às sete e meia acabei por escrever ao chefe a dizer que me sentia mal e que não iria. Não gosto de mentir, mas houve qualquer coisa no comportamento da Katia que me ficou atravessada.
Intuição, talvez…
O dia arrastava-se, dolorosamente lento.
Tentei ocupar-me com tarefas de casa: arrumei o armário, lavei as janelas, até comecei a ler um livro que tinha comprado no ano passado.
Mas os pensamentos voltavam sempre à visita noturna da vizinha.
Às dez da manhã ligou-me a minha amiga Oksana:
— Porque é que estás em casa? Estás doente?
— Mais ou menos. Mas como é que sabes?
— Eu trabalho aqui perto do teu escritório. Queria almoçar contigo, passei para te convidar para um café, e tu não estavas.
— Olha, e por aí está tudo tranquilo? Não se passa nada estranho?
— Parece um dia normal. Liza, tens a certeza de que estás bem? A tua voz soa tão ansiosa.
Não lhe contei nada sobre a Katia. Nem eu própria percebia ao certo o que se estava a passar.



Pelo meio-dia, a minha paciência rebentou. Decidi vestir-me e ir ao escritório. Afinal, que problemas podia haver em plena luz do dia no centro de Moscovo?
Mas, nesse instante, voltaram a bater à porta.
Desta vez era a vizinha idosa, a tia Zina, do terceiro andar. Nas mãos trazia um tabuleiro com rissóis.
— Lizinha, querida, ouvi dizer que estás constipada. Olha, trouxe-te rissóis de couve, ainda quentinhos.
— Muito obrigada, entre.
A tia Zina foi até à cozinha, pousou o tabuleiro em cima da mesa e olhou para mim de um modo estranho.
— A Katia veio cá ontem à noite? — perguntou de repente.
— Como é que sabe?
— Ouvi a porta bater. Com a idade o sono fica mais leve! — fez uma pausa e depois acrescentou: — Ainda bem que lhe obedeceste.
Um arrepio correu-me pelas costas.
— Tia Zina, a senhora sabe alguma coisa?
A velhota abanou a cabeça:
— Eu não sei nada. Mas a Katia é uma rapariga especial. Ela tem… como dizer… um sexto sentido. Lembras-te de há dois meses, quando ela andou a dizer a toda a gente para armazenar água? Que iam cortar a água durante uma semana. Ninguém acreditou, e ela andava a carregar frascos de três litros. E depois, de facto, rebentou uma conduta e ficámos quatro dias sem água.
Eu lembrava-me vagamente dessa história. Na altura toda a gente se ria da prudência da Katia.
— Ela é médium?
— Não, não, que ideia. É uma rapariga normal, trabalha como programadora. Só que, às vezes… sabe coisas que não devia saber. Tem uma intuição muito apurada.
Depois de a tia Zina sair, fiquei completamente baralhada. Uma coisa é um pedido estranho de uma vizinha com quem mal falo; outra é quando pessoas que a conhecem há anos acreditam nela.
À uma da tarde alguém me ligou de um número desconhecido.
— É a senhora Elizaveta Sergueievna Volkova? Daqui fala o primeiro-tenente Petrov, da polícia. Podia deslocar-se cá para prestar declarações?
Senti o coração cair-me aos pés.
— Prestar declarações? A propósito de quê?
— Esta manhã ocorreu um incidente no edifício onde fica o seu escritório. Ninguém ficou ferido, mas precisamos de falar com os funcionários da empresa “Aliança-Projeto”.
— Que incidente?
— Por telefone não discutimos detalhes. Quando é que pode vir?
Olhei para o relógio. Uma da tarde em ponto.
— Mas o que aconteceu exatamente? Hoje estou de baixa, estou em casa.
— Melhor ainda. Então não a afetou diretamente. Mas precisamos na mesma de falar consigo. Amanhã de manhã serve?
— Serve.
Depois de desligar, fiquei meia hora sentada na cozinha, a olhar para um ponto fixo. A Katia sabia. De alguma forma, sabia que ia acontecer alguma coisa no nosso escritório. E avisou-me.
Mas como? E, sobretudo, porquê eu?
Tentei ligar a colegas, mas os telefones ou não atendiam ou estavam indisponíveis. No chat corporativo também reinava o silêncio. As últimas mensagens eram da noite anterior.
Às quatro da tarde, não aguentei e subi ao quinto andar.
A Katia abriu a porta depressa, como se estivesse à minha espera. Parecia muito melhor do que durante a noite, mas nos olhos ainda havia uma espécie de alerta.
— Entra — disse ela simplesmente. — Queres chá?
— Sim, obrigada. Ligaram-me da polícia — disse eu, sentando-me no sofá. — Aconteceu alguma coisa no nosso escritório.
A Katia acenou com a cabeça, a servir chá de um termo.
— Um desabamento. A laje do teto no oitavo andar não aguentou. Mesmo por cima do vosso escritório.
— O quê?! — levantei-me de repente. — E as pessoas? Alguém ficou ferido?
— Não. Felizmente não. Evacuaram o edifício de emergência às nove e meia, logo depois de um engenheiro ter reparado em fissuras no teto. A laje caiu às onze e quarenta.
Sentei-me de novo no sofá, a tentar processar o que tinha acabado de ouvir. Se eu tivesse ido trabalhar como sempre…
— Como é que sabes isso tudo? E como é que sabias de antemão que isto ia acontecer?…
A Katia ficou em silêncio por um instante e depois sentou-se à minha frente.
— Eu não sabia exatamente o que ia acontecer. Mas sabia que ia acontecer alguma coisa. E que teria a ver com o vosso edifício.
— Então tu és vidente?
— Não — a Katia esboçou um sorriso amargo. — Sou hacker. Quer dizer, fui. Agora trabalho em segurança da informação.
— E o que é que isso tem a ver com o desabamento?
— Há um mês eu estava num projeto, a fazer uma auditoria de segurança para uma seguradora. Durante o trabalho tive de estudar a base de dados deles sobre imóveis. E deparei-me com uma coisa interessante.
A Katia levantou-se, foi até a um dos computadores e abriu qualquer coisa no ecrã.
— Vês estes documentos? Peritagens do estado técnico dos edifícios. As conclusões oficiais dizem que está tudo bem. Mas estes ficheiros são os relatórios reais dos engenheiros. Estavam escondidos nos arquivos, mas eu encontrei-os.
No ecrã passavam tabelas, esquemas, fotografias de fissuras no betão.
— O teu edifício estava no grupo de risco há dois anos. Microfissuras nas lajes, excesso de carga admissível, irregularidades durante a reconstrução. Mas a empresa de gestão e os seguradores abafaram o caso. Saía mais barato subornar peritos do que fazer uma reabilitação a sério.
— Queres dizer que eles sabiam que podia haver um desabamento e ficaram calados?
— Exatamente! — a Katia virou-se para mim. — E ontem à noite eu soube que amanhã, isto é, hoje, devia ir ao edifício uma comissão da câmara. Uma inspeção extraordinária. Alguém decidiu finalmente pressionar para que a investigação avançasse.
Eu ouvia-a, a sentir tudo a gelar por dentro.
— Então o desabamento não foi um acidente?
— É difícil dizer. Pode ter sido coincidência. Ou pode ser que alguém tenha achado melhor o edifício cair “sozinho” do que o fecharem por causa das irregularidades. Assim há menos perguntas.
— E tu sabias isto tudo de antemão?
— Não tudo. Eu só sabia que o edifício era perigoso e que hoje lá tinha de acontecer alguma coisa. Por isso é que fui ter contigo — a Katia olhou pela janela. — Sinceramente, achei que não ias acreditar e que me ias mandar passear.
Ficámos caladas.
Eu tentava digerir tudo aquilo. Alguém, durante anos, pôs vidas em risco para poupar dinheiro. E a minha vizinha — que eu mal conhecia — arriscou parecer maluca para me salvar a vida.



— Porque é que me ajudaste? — perguntei por fim. — Nós quase não falávamos.
— Não sei — confessou a Katia. — Talvez porque és a única no prédio que me cumprimenta com sinceridade. Ou talvez porque eu tinha informação que podia salvar alguém, e calar-me teria sido um crime.
— E agora o que vais fazer com esses documentos?
A Katia sorriu e, pela primeira vez, vi nos olhos dela algo parecido com satisfação.
— Já os entreguei. À procuradoria, ao comité de investigação e a jornalistas. Anonimamente, claro. Acho que amanhã ou depois começa uma investigação bem interessante.
No dia seguinte, mesmo assim, fui à esquadra.
O edifício do nosso escritório estava vedado. À volta, pessoas de capacete andavam de um lado para o outro, a fotografar e a medir coisas. Era arrepiante, sobretudo quando se percebe que ainda ontem de manhã podíamos ter estado lá dentro.
O primeiro-tenente Petrov observou-me atentamente de alto a baixo e pediu-me que me sentasse.
— Fale-me do seu trabalho na empresa — pediu ele. — Há quanto tempo lá trabalha, se sabia de algum problema com o edifício.
Eu contei com sinceridade tudo o que sabia.
Que às vezes ouvia o teto ranger; que há um ano apareceu uma fissura na parede da casa de banho, mas que a taparam depressa com massa. E que a empresa de gestão se limitava sempre a desvalorizar as queixas dos inquilinos.
— E porque é que ontem não foi trabalhar? — perguntou o Petrov. — No atestado está “infeção respiratória”, mas a senhora não parece doente.
Eu hesitei. Não queria falar da Katia — tinha medo de lhe fazer mal.
— Eu estava mesmo a sentir-me mal. À noite já me passou um bocado.
— Percebo — o investigador anotou qualquer coisa. — Se se lembrar de mais alguma coisa importante, ligue-nos.
À saída da esquadra, ligou-me a Oksana:
— Liza, viste as notícias? Estão a escrever sobre o vosso edifício!
Em casa, abri a internet. Em vários sites de notícias grandes já havia peças sobre o incidente de ontem. Mas não eram simples notas de ocorrência. Os jornalistas já estavam a cavar mais fundo.
“Desabamento no centro de Moscovo: negligência ou intenção?” — dizia a manchete de um jornal.
“Fontes nas autoridades referem a existência de documentos que indicam que o estado técnico do edifício já levantava preocupações há dois anos…”
Outra reportagem era ainda pior: “O esquema do silêncio: como as empresas de gestão encobrem irregularidades à custa da vida das pessoas”.
E apareciam números concretos, nomes e até fotografias das mesmas peritagens que a Katia me tinha mostrado.
À noite, subi a casa dela.
— Leste as notícias? — perguntou ela, ao deixar-me entrar.
— Li. Foste tu que lhes enviaste tudo?
— Fui. E sabes uma coisa? Já há resultados. Hoje de manhã os investigadores foram à empresa de gestão com um mandado de busca. E ao fim do dia o diretor ficou com termo de identidade e residência.
A Katia parecia entusiasmada, mas reparei que as mãos lhe tremiam ligeiramente.
— Não tens medo? E se descobrem que foste tu a passar a informação?
— Tenho — admitiu ela. — Mas eu não podia ficar calada. Percebes, eles não sabiam só do vosso edifício. Têm mais uns vinte imóveis em Moscovo no mesmo estado. Prédios habitacionais, escritórios, centros comerciais. Se não se levantasse poeira agora, mais cedo ou mais tarde alguém ia sofrer. A sério.
— E o que vai acontecer a esses edifícios?
— Vão inspecionar todos. Onde for preciso, fecham para obras. Nalguns casos, talvez tenham mesmo de realojar pessoas. Sim, isso vai dar problemas, mas ao menos ficam vivos.
— Sabes o que mais me impressionou nesta história? — perguntei eu. — Não foi o facto de tu descobrires coisas sobre o edifício. Foi teres decidido avisar-me. Foi arriscado. Eu podia achar que eras doida ou, pior, contar a alguém que andas a mexer em bases de dados alheias.
A Katia encolheu os ombros:
— E como é que eu podia fazer outra coisa? Saber que alguém vai caminhar para uma possível morte e ficar calada? Eu ia culpar-me o resto da vida.
— Nem toda a gente faria isso.
— Não sei. Eu acho que toda a gente faria. Só que nem toda a gente tem este tipo de informação.
Nesse momento, o telemóvel dela tocou. A Katia olhou para o ecrã e franziu o sobrolho.
— Estou? — respondeu, cautelosa. — Sim, sou eu… O quê? Quando?… Entendido. Obrigada por avisar.
Desligou e olhou para mim com os olhos assustados.
— Era um ex-colega meu daquela seguradora. Diz que hoje também houve busca lá. E ainda ouviu uma conversa na zona de fumadores: alguém da direção mencionou o meu apelido.
Os dias seguintes passaram num estado de espera tensa.
A Katia quase não saía de casa, e eu subia muitas vezes: ora com rissóis, ora só para perguntar como ela estava. Em uma semana ficámos mais amigas do que em todos os meses anteriores de vizinhança.
Na quarta-feira à noite ela abriu a porta com um sorriso radiante.
— Liza, tenho novidades! — praticamente arrastou-me para dentro. — Hoje ligaram-me do Comité de Investigação. Oficialmente. Querem que eu vá prestar depoimento como testemunha.
— Isso é bom ou mau?
— Ótimo! Quer dizer que o caso é sério, se os investigadores não têm medo de envolver uma hacker. E mais… ofereceram-me trabalho.
— Onde?
— Na Procuradoria. Como especialista em crimes informáticos! — a Katia riu-se. — Imagina! A vida inteira tive medo de ser presa por hacking, e agora convidam-me para ajudar a apanhar criminosos a sério.



Comemorámos com uma garrafa de vinho que eu trouxe das minhas reservas. Lá fora nevava; o apartamento da Katia parecia aconchegante, apesar de todos aqueles computadores. Pela primeira vez em muitos meses, senti que tinha uma amiga de verdade.
— E a nossa empresa? — perguntei. — Onde é que vamos trabalhar agora?
— Vocês já estão a trabalhar. Alugaram um escritório provisório no outro lado da cidade. A Oksana contou-me — perguntou ao teu chefe.
E, de facto, no dia seguinte o Mikhail Petrovitch ligou-me e deu-me a morada do novo escritório.
— Liza, por acaso não tem contactos na imprensa? — perguntou ele no fim da chamada. — É que os jornalistas souberam não sei como de todos os nossos assuntos internos. Até daquele projeto que discutimos numa reunião fechada.
— Não — menti eu. — De onde é que eu teria contactos na imprensa?
Um mês depois, o caso ganhou proporções grandes. Prenderam não só o diretor da empresa de gestão, mas também vários funcionários públicos que encobriam as irregularidades. Na cidade começou uma inspeção em massa a edifícios, e encontraram mais dezassete imóveis em estado de perigo.
A Katia irradiava felicidade. O novo trabalho parecia agradar-lhe imenso. Contava como ajudava os investigadores a desvendar esquemas digitais, como encontrava documentos escondidos e rastos de crimes informáticos.
— Sabes o que é mais gratificante? — disse-me ela uma noite, enquanto bebíamos chá na cozinha. — Finalmente sinto que as minhas capacidades servem para alguma coisa. Antes eu invadia sistemas só porque conseguia. Agora faço-o para repor a justiça.
— E não te assusta lidar com gente tão “pesada”?
— Ao início assustava. Depois percebi que são pessoas normais, como nós. Só têm outro trabalho. E querem mesmo que os criminosos respondam pelos seus atos.
No início da primavera houve julgamento.
Chamaram a Katia como testemunha. Ela estava muito nervosa. E eu, claro, fui apoiá-la.
O diretor da empresa de gestão levou quatro anos de pena suspensa e uma multa enorme. O seu adjunto, dois anos. Os funcionários públicos também não foram ilibados. E, o mais importante, o tribunal obrigou a empresa a pagar, com fundos próprios, a reparação de todos os edifícios problemáticos.
— A justiça venceu — disse a Katia quando saímos do tribunal. — Sinceramente, até ao fim eu não acreditava que isto acabasse assim.
— Eu acreditava. Acreditava em ti.
Rimo-nos e fomos para casa.
À nossa frente esperava-nos a vida normal: trabalho, amigos, planos para o futuro. Mas agora eu sabia com certeza que, quando algo corre mal, há sempre alguém que não passa ao lado. Às vezes essa pessoa vive um andar acima e está disposta a arriscar a própria paz para garantir a tua segurança.
E isso é, talvez, a melhor coisa que se pode saber sobre o mundo onde se vive.
