Chega de te agarrares às paredes! — gritava a sogra, empurrando-me para a saída. — Vais embora e será mais fácil para todos!

Yúlia estava à janela a observar a cidade ao entardecer. As luzes dos candeeiros refletiam-se no asfalto molhado, as pessoas apressavam-se para casa depois do trabalho.
Um apartamento de três assoalhadas mesmo no centro — o sonho de qualquer citadino. A mulher comprara aquela casa cinco anos antes, ainda antes de conhecer Andrei. Na altura trabalhava como gestora numa grande empresa, poupava cada cêntimo, contraiu um empréstimo.
Pagou-o durante oito anos, privando-se de tudo. Mas agora o apartamento era totalmente seu. Os documentos estavam em nome de Yúlia Aleksándrovna Sokolova, sem dívidas, sem quaisquer ónus.
Casou-se há um ano. Andrei trabalhava na mesma empresa. Yúlia reparou nele numa festa da empresa.
Simpático, calmo, sem maus hábitos. Os pais dele também eram normais, pelo menos assim parecia no início.
O pai falecera há muito, a mãe, Galina Serguéievna, vivia sozinha num T2 na periferia. Reformada, sessenta e dois anos, antiga contabilista.
A sogra vinha visitá-los com frequência. Pelo menos três vezes por semana. No início, Yúlia não se opunha; achava normal que a mulher quisesse ver o filho.
Galina Serguéievna trazia tartes, ajudava na limpeza, falava de pequenas coisas do dia a dia. À primeira vista, uma simpática senhora idosa.
Mas, gradualmente, Yúlia começou a notar estranhezas. A sogra examinava o apartamento com atenção excessiva.
Espiava os quartos, abria os armários, tocava nos móveis. Fazia perguntas sobre a metragem, a disposição, o valor das despesas de condomínio.
— O vosso apartamento é tão espaçoso — comentou mais uma vez Galina Serguéievna, percorrendo o corredor. — Setenta metros quadrados, não é?
— Setenta e cinco — уточou Yúlia, enquanto cortava salada na cozinha.
— Setenta e cinco! — a sogra assobiou. — E no centro! Sabes quanto se pode ganhar com um apartamento destes?
— Em que sentido?
— Ora, se o arrendarem. A um casal jovem, por exemplo. Ou a pessoas de fora.
Yúlia parou, a faca suspensa sobre a tábua.
— Galina Serguéievna, eu não tenciono arrendar o apartamento.
— Porquê? — a sogra sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos no tampo. — Yúlia, pensa bem. Um T3 no centro arrenda-se facilmente por cinquenta mil. Talvez até mais. Por mês! É um bom dinheiro.
— Eu tenho trabalho. O meu salário é bom.
— Mas isto seria um rendimento extra! — Galina Serguéievna animou-se. — Arrendam o apartamento, recebem o dinheiro, e tu e o Andrei podiam viver comigo. Tenho espaço suficiente, afinal é um T2.
Yúlia pousou lentamente a faca.
— Galina Serguéievna, este é o meu apartamento. Eu vivo aqui. Não vou mudar-me para lado nenhum.
— Vá lá — acenou a sogra com a mão. — Que é mudar de casa? E o dinheiro que ganhariam!
— Não — disse Yúlia com firmeza. — Nem sequer se discute.
A sogra apertou os lábios, mas ficou em silêncio. A noite passou tensa. Galina Serguéievna foi-se embora mais cedo do que o habitual, despedindo-se friamente.
Mas o assunto não ficou encerrado. A sogra voltava a ele vezes sem conta.
— Yúlia, ontem falei com a vizinha, a Tamara Ivanovna — começava Galina Serguéievna numa das visitas seguintes. — O filho dela arrenda o apartamento. Imagina, recebe sessenta mil por mês! Sessenta!
— Ótimo para ele — respondia Yúlia, sem levantar os olhos do livro.
— Tu não percebes! É dinheiro que entra sem fazeres nada! Não fazes nada e ele vai pingando!
— Galina Serguéievna, até quando? Eu não quero arrendar o apartamento.
— Mas porquê?! — a sogra quase gritava de indignação. — Explica-me porque recusas um rendimento desses!
— Porque esta é a minha casa — Yúlia fechou o livro. — Fiz as obras para mim! É a minha fortaleza. Aqui descanso, aqui vivo. Não quero meter estranhos dentro de casa.
— Estranhos! — imitou-a Galina Serguéievna. — Escolhemos pessoas decentes! Cuidadosas! Não tens de te preocupar com os bens!
— Não.
— Que teimosia — abanou a cabeça a sogra. — Andryusha, fala com a tua mulher. Explica-lhe.
Andrei estava sentado no sofá a mexer no telemóvel. Levantou os olhos.
— Mãe, é decisão da Yúlia. O apartamento é dela.
— Mas vocês são marido e mulher! Devem decidir juntos!
— E decidimos juntos — disse Yúlia. — Não vamos arrendar o apartamento.
Galina Serguéievna voltou a tocar no assunto várias vezes. Dava exemplos de conhecidos que enriqueceram com o arrendamento. Mostrava anúncios na internet onde pessoas procuravam apartamentos por valores enormes.
Contava histórias de estudantes de famílias ricas dispostos a pagar qualquer quantia por uma habitação confortável no centro.
Yúlia manteve-se firme. Recusava categoricamente até discutir a possibilidade de arrendar. Andrei apoiava a mulher, ainda que em silêncio. Simplesmente não a contrariava quando ela rejeitava as propostas da mãe.
Dois meses depois, Galina Serguéievna apareceu com novidades.
— Meninos, decidi fazer obras! — anunciou a sogra mal atravessou a porta.
— Que obras? — perguntou Andrei.
— Obras a sério! Vou renovar o apartamento todo! — os olhos de Galina Serguéievna brilhavam de entusiasmo. — Já escolhi o papel de parede, os azulejos para a cozinha, o laminado para o chão. Encontrei uma designer, mostrou-me os esboços. Vai ficar lindíssimo!
— Mãe, isso é caro — franziu o sobrolho Andrei.
— É caro, mas bonito! — a sogra tirou o telemóvel e começou a mostrar fotografias. — Vejam que papel de parede! Italiano! E os azulejos — espanhóis, imitação de mármore!
Yúlia olhava para as fotografias e fazia contas de cabeça. Papel de parede italiano, azulejos espanhóis, designer. Tudo aquilo custaria uma fortuna. De onde teria a reformada tanto dinheiro?
— Galina Serguéievna, quanto vai custar tudo isso? — perguntou Yúlia com cautela.
— Oh, não fiz as contas ao certo — respondeu a sogra com um gesto vago. — Trezentos ou quatrocentos mil, talvez. Quem sabe quinhentos.


— Quinhentos mil? — Yúlia quase se engasgou com o chá. — É imenso dinheiro!
— E então? Quero viver com conforto! — Galina Serguéievna guardou o telemóvel. — Trabalhei a vida inteira para os outros, neguei-me tudo. Agora é tempo de me dar um gosto!
— Mãe, e o dinheiro? — perguntou Andrei.
— Poupei — respondeu ela, seca.
Yúlia ficou em silêncio, mas não acreditou. A pensão de Galina Serguéievna rondava os vinte mil. Juntar meio milhão com essa pensão? Seriam precisos anos, privando-se de tudo. E a sogra comprava regularmente cosméticos caros, ia a salões de beleza, passava temporadas em estâncias termais. De onde vinha o dinheiro?
À noite, Yúlia perguntou a Andrei:
— Diz-me uma coisa, a tua mãe tem mesmo esse dinheiro para as obras?
— Não sei — encolheu os ombros o marido. — A mãe nunca se queixou de falta de dinheiro.
— Mas quinhentos mil! Não é troco!
— Talvez tenha feito um empréstimo. Ou pedido emprestado a alguém.
— A quem? A nós não pediu.
— Às amigas, talvez. Ou ao banco.
Yúlia franziu a testa, mas deixou o assunto. No fim de contas, não era da sua conta de onde vinha o dinheiro da sogra.
As obras começaram. Galina Serguéievna informava-os regularmente sobre o andamento dos trabalhos. Mostrava fotografias das paredes sem papel, dos pisos sem revestimento, da cozinha coberta de pó de construção. Falava dos operários, dos materiais, das soluções de design.
— Vejam o candeeiro que comprei! — exibia entusiasmada mais uma aquisição. — Cristal checo! Custou vinte e cinco mil!
— É bonito — concordava Yúlia, por cortesia.
— E já viram a banheira? Acrílica, com hidromassagem! Dei quarenta mil por ela, mas vale a pena!
Yúlia ouvia e espantava-se. Candeeiro por vinte e cinco, banheira por quarenta, azulejos, papel de parede, laminado, mobiliário. A soma aumentava a cada dia. De onde vinha tanto dinheiro para uma reformada?
Passou um mês. As obras avançavam a todo o vapor. Galina Serguéievna irradiava felicidade ao mostrar os resultados intermédios. As paredes foram niveladas e revestidas com papel de parede caro. O chão foi coberto com laminado. Na cozinha colocaram os azulejos espanhóis. Na casa de banho instalaram nova canalização.
— Quando terminam? — perguntou Andrei.
— Dentro de duas semanas — respondeu a mãe. — Falta colocar os móveis e pendurar as cortinas.
E então, numa certa noite, Galina Serguéievna apareceu à porta com um ar sério. Entrou, tirou o casaco, sentou-se à mesa. Olhou para o filho e para a nora.
— Precisamos de falar — disse a sogra.
— Sobre o quê? — perguntou Yúlia, desconfiada.
— Sobre a vossa mudança.
— Que mudança? — Yúlia não compreendeu…
— Para minha casa. Têm de se mudar para minha casa.
Yúlia ficou imóvel. Andrei também olhou para a mãe, perplexo.
— Mãe, o que estás a dizer? — perguntou o marido.
— Estou a dizer exatamente isso. Vocês mudam-se para minha casa. Hoje ou amanhã comecem a fazer as malas.
— Espera, não estou a perceber — Yúlia levantou-se da mesa. — Porque é que de repente temos de nos mudar?
— Porque eu preciso do vosso apartamento — explicou calmamente Galina Serguéievna.
— Para que precisa dele?
— Vou arrendá-lo. A estudantes. Ou a quem aparecer.
Silêncio. Yúlia olhava para a sogra, sem acreditar no que ouvira.
— Está a brincar?
— Nem por sombras — Galina Serguéievna cruzou os braços ao peito. — Fiz um empréstimo para as obras. Meio milhão. É preciso pagar, e não tenho dinheiro. A única saída é arrendar o vosso apartamento. Por cinquenta mil por mês aluga-se facilmente.
— Espere — Yúlia sentiu o sangue começar a ferver. — Fez um empréstimo para as suas obras e agora quer que eu entregue o meu apartamento para pagar a sua dívida?
— Exatamente — assentiu a sogra. — Não tenho outra opção. Vocês ajudam-me, não é?
— Galina Serguéievna — Yúlia falava devagar, tentando não gritar — este é o meu apartamento. Comprado com o meu dinheiro. Antes de me casar com o seu filho.
— E então? Agora vocês são família. Devem ajudar-se uns aos outros.
— Ajudar é uma coisa. Entregar o meu apartamento a estranhos é outra completamente diferente!
— Não é a estranhos, é para arrendar! — a sogra elevou a voz. — Temporariamente! Até eu pagar o empréstimo!
— Durante quanto tempo vai pagar esse empréstimo?
— Uns três anos, talvez.
— Três anos?! — as mãos de Yúlia começaram a tremer. — Quer que eu viva três anos em sua casa enquanto o meu apartamento é arrendado a pessoas desconhecidas?!
— E qual é o problema? O meu apartamento está ótimo, depois das obras. Vão gostar.
— Eu gosto é de viver aqui! — Yúlia já quase gritava. — Esta é a minha casa! Fui eu que a comprei, é aqui que vivo, e não vou mudar-me para lado nenhum!
— Yulinha, não te exaltes — Galina Serguéievna levantou-se. — Já está tudo decidido. Amanhã vêm uns estudantes ver o apartamento. Já publiquei o anúncio.
— Que anúncio?! — Yúlia deu um passo em direção à sogra. — Publicou um anúncio para arrendar o meu apartamento sem o meu consentimento?!
— E que havia de fazer? Preciso de dinheiro! Tenho de pagar o empréstimo!
— Isso é problema seu! Não devia ter feito um empréstimo de meio milhão!
— Pensei que ias compreender! — Galina Serguéievna também começou a gritar. — Não fiz isto só por mim! Fiz pelo Andryusha! Para ele ter uma casa bonita onde vir visitar a mãe!
— Eu não pedi nada — murmurou Andrei.
— Cala-te! — berrou a sogra para o filho. — Os adultos estão a falar!
— Galina Serguéievna — Yúlia cerrou os punhos — é a última vez que digo: o meu apartamento não o entrego a ninguém. Nem a estudantes, nem a quem quer que seja. É minha propriedade.
— Propriedade! — imitou a sogra. — És gananciosa, Yúlia! É isso que te digo! Tão forreta com a tua sogra!
— Não sou gananciosa! Só não quero pagar as suas dívidas!
— As minhas dívidas? — Galina Serguéievna corou de raiva. — São dívidas de família! Andryusha é meu filho! E tu és mulher dele! Portanto, tens de ajudar!
— Ajudar, sim! Entregar o apartamento, não!
— Chega de discussões! — a sogra avançou na direção de Yúlia. — Amanhã começam a fazer as malas! Daqui a três dias chegam os inquilinos! Já recebi um sinal!
— Recebeu um sinal? — Yúlia empalideceu. — Pelo meu apartamento?!
— Pelo nosso apartamento! Da família!
— Este não é um apartamento da família! É meu! Só meu!
— Chega de te agarrares às paredes! — gritou Galina Serguéievna, agarrando Yúlia pelo braço e puxando-a para a porta. — Vais embora e será mais fácil para todos!
Yúlia soltou o braço com um puxão.



— Não me toque!
— Vai-te embora, estou a dizer! — a sogra empurrou a nora para o hall de entrada. — Já chega dos teus caprichos! Arrendo o apartamento, recebo o dinheiro, pago o empréstimo!
— Andrei! — Yúlia voltou-se para o marido. — Vais ficar calado?!
Andrei estava sentado no sofá, a olhar para o chão. Em silêncio.
— Andrei! — repetiu Yúlia. — Diz alguma coisa!
O marido levantou-se lentamente. Foi ao quarto. Voltou com um saco de viagem. Começou a arrumar as coisas.
— O que estás a fazer? — Yúlia não queria acreditar no que via.
— Estou a fazer as malas — respondeu Andrei em voz baixa. — Se a mãe disse que temos de nos mudar, então é o que temos de fazer.
— Como assim temos de fazer?! — Yúlia sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. — Este é o meu apartamento!
— A mãe tem razão — Andrei evitava olhar para a mulher. — O empréstimo tem de ser pago. E não há dinheiro.
— Que a tua mãe pense como o pagar! O empréstimo é dela!
— Mas somos família — murmurou ele, enfiando camisas no saco.
— Família? — Yúlia soltou uma gargalhada amarga. — Que família, Andrei? Estás a fazer as malas porque a tua mãe mandou! Sem me perguntares nada! Sem me defenderes!
— Yúlia, não compliques — Andrei fechou o saco. — Mudamo-nos por um tempo, qual é o problema?
— Por três anos! — gritava Yúlia. — Três anos, Andrei! Enquanto a tua mãe paga o empréstimo! E o meu apartamento será arrendado a estudantes que vão destruir tudo!
— Muito bem, Andryusha — assentiu Galina Serguéievna com aprovação. — Faz as malas. Vamos para minha casa.
— Esperem — Yúlia colocou-se no meio da sala. — Ninguém vai a lado nenhum.
— Como assim ninguém vai? — a sogra franziu o sobrolho.
— Assim mesmo. Porque este é o meu apartamento. E eu não dei consentimento para mudança nenhuma.
— Yulinha, não sejas caprichosa — Galina Serguéievna deu um passo em frente. — O Andrei já concordou. A mulher deve viver com o marido.
— O Andrei pode concordar o quanto quiser. Mas o apartamento é meu. E aqui quem decide sou eu.
— Não ouviste bem? — a sogra estreitou os olhos. — Eu disse que vocês se mudam!
— E eu disse que não — Yúlia cruzou os braços ao peito. — Aliás, já que a situação chegou a este ponto, vou pedir o divórcio.
Silêncio. Andrei deixou cair o saco. Galina Serguéievna ficou imóvel, de boca aberta.
— O que disseste? — perguntou a sogra.
— Disse que vou pedir o divórcio do seu filho — repetiu Yúlia calmamente. — Se ele não consegue defender a própria mulher da arrogância da mãe, para que preciso eu de um marido assim?
— Yúlia, do que estás a falar? — Andrei deu um passo na direção da esposa.
— Do que ouviste. Divórcio. No divórcio, o apartamento fica comigo. Foi comprado antes do casamento, com o meu dinheiro. Não tens qualquer direito sobre ele.
— Yúlia, não digas disparates — Andrei tentou pegar-lhe na mão.
Yúlia afastou-se.
— Não são disparates. É uma decisão. Escolheste a tua mãe. Fizeste as malas sem sequer falar comigo. Traíste-me. Para que quero um marido que não está do meu lado?
— Eu estou do teu lado!
— Estás a mentir. Se estivesses do meu lado, expulsavas a tua mãe agora mesmo, em vez de estares a fazer as malas.
— Ela é minha mãe!
— E eu sou tua mulher! — gritou Yúlia. — Mulher, Andrei! Que devia ser mais importante do que a mãe!
— Insolente! — interveio Galina Serguéievna. — Como te atreves a falar assim!
— Muito simplesmente — Yúlia virou-se para a sogra. — Galina Serguéievna, fez um empréstimo para as suas obras. É problema seu como o vai pagar. Não se meta no meu apartamento nem na minha vida.
— Não me meto nada! Andryusha, vamos! — a mãe agarrou o filho pelo braço.
— Espera, mãe — Andrei tentou libertar-se.
— Vamos, estou a dizer! — Galina Serguéievna puxou o filho para a saída.
— Andrei, se saíres agora com ela, considera que estamos divorciados — disse Yúlia.
O marido parou. Olhou para a mulher, depois para a mãe. Galina Serguéievna puxava-o para a porta; Yúlia permanecia no meio da sala, com o rosto de pedra.
— Andryusha, vamos! — repetiu a mãe.
Andrei pegou no saco. Caminhou para a saída.
— Muito bem — disse Yúlia. — Se escolheste a tua mãe, vive com ela. O apartamento é meu. E continuará a ser meu.
— Ainda vamos ver! — rosnou Galina Serguéievna. — Em tribunal tiramo-lo!
— Tentem — sorriu Yúlia com desdém. — Mas contratem um bom advogado. O apartamento foi comprado com o meu dinheiro antes do casamento. Não têm direito nenhum sobre ele.
— O Andrei viveu aqui!
— Viveu. Agora já não vive. Rua do meu apartamento. Os dois.
— Não o podes expulsar! — a sogra bateu o pé.
— Posso. E estou a expulsá-lo. Isto é minha propriedade. O Andrei está registado aqui, mas a proprietária sou eu. E depois do divórcio, o marido perde o direito de residência.
— Yúlia, vamos conversar — tentou Andrei.
— Não há nada para conversar — Yúlia abriu a porta. — Saiam. Agora.
— Vais arrepender-te! — ameaçou Galina Serguéievna.
— Já me arrependi. De me ter casado com o filhinho da mamã.
A sogra sibilou qualquer coisa, mas Yúlia já não ouvia. Limitou-se a ficar junto à porta aberta, à espera. Andrei hesitava no hall de entrada.
— Andryusha, vamos! Aqui não tens lugar! — ordenou a mãe.
O marido saiu para o patamar. Galina Serguéievna seguiu-o. Yúlia fechou a porta com força e rodou a chave na fechadura.
Encostou-se à porta, respirando fundo, tentando acalmar o tremor nas mãos. Do outro lado ouviam-se vozes. A sogra gritava qualquer coisa, exigia que abrissem. Andrei tentava convencer a mãe a ir embora.
Yúlia fechou os olhos. As lágrimas afloraram, mas conteve-se. Não agora. Chorará depois, quando estiver sozinha.
As vozes calaram-se. Ouviram-se passos na escada. A porta do prédio bateu.
Yúlia foi para a sala. Sentou-se no sofá. Olhou em volta. O apartamento parecia vazio sem Andrei. Embora, em um ano, ele mal tivesse tido tempo de se instalar ali. Deixara poucas coisas.
O telemóvel vibrou. Mensagem de Andrei: «Yúlia, vamos falar com calma. Não tomes decisões precipitadas.»
Yúlia apagou a mensagem. Bloqueou o número. Depois bloqueou também o número de Galina Serguéievna.
Levantou-se e percorreu o apartamento. Juntou as coisas que restavam de Andrei numa caixa. Colocou-a junto à porta. Amanhã leva-as à casa da mãe dele. Ou deita fora. Decide depois.
Sentou-se ao computador. Abriu o site de aconselhamento jurídico. Encontrou a secção sobre divórcios. Começou a ler.
O apartamento comprado antes do casamento com recursos próprios permanece com o comprador em caso de divórcio.
O marido não tem direito a reclamar qualquer parte. O registo de residência não é direito de propriedade. Após o divórcio, o ex-cônjuge pode ser retirado do registo através do tribunal.
Yúlia assentiu. Assim será. Amanhã mesmo dará entrada com o pedido de divórcio. Cancelará o registo de Andrei através do tribunal. O apartamento ficará com ela.
Fechou o portátil. O telemóvel voltou a vibrar. Número desconhecido. Yúlia atendeu.
— Sim?
— Yúlia, sou o Andrei.
— O que queres?
— Vamos encontrar-nos. Falar com calma.
— Não há nada para falar.
— Yúlia, compreende, a mãe está desesperada. Não tem como pagar o empréstimo.
— Que venda o apartamento dela, agora que o remodelou. O dinheiro chega perfeitamente.
— Ela não quer vender. Acabou de fazer as obras.
— Então que procure outras soluções. O meu apartamento não terá.
— Mas nós somos família!
— Éramos família — corrigiu Yúlia. — Até ao momento em que fizeste as malas por ordem da tua mãe.
— Eu só queria acalmar a situação!
— Acalmaste. Agora trata de dissolver o casamento. Amanhã entrego o pedido.
— Yúlia!
— Adeus, Andrei.
Yúlia desligou. Bloqueou o novo número. Desativou o som. Pousou o telemóvel na mesa.
Foi para o quarto. Deitou-se na cama. Ficou a olhar para o teto.
Há um ano parecia que tinha encontrado a sua cara-metade. Andrei era calmo, fiável. Não fazia escândalos, não bebia, trabalhava. O marido perfeito, pensava Yúlia.
E afinal era um filhinho da mamã. Que, ao primeiro conflito sério, escolheu a mãe.
Fez as malas e dirigiu-se à porta, sem sequer tentar defender a mulher.
Yúlia fechou os olhos. As lágrimas finalmente correram. Injusto. Doloroso. Amargo. Um ano de vida gasto com alguém que, ao primeiro teste, falhou redondamente.
Mas a escolha estava feita. Não havia caminho de volta. Amanhã entregar o pedido. Dentro de um mês, o divórcio. O apartamento ficará com Yúlia. Andrei ficará com a mãe. Galina Serguéievna pagará o empréstimo sozinha. De alguma forma.
E Yúlia começará uma nova vida. Sem um marido fraco. Sem uma sogra manipuladora. Apenas ela e o seu apartamento. A sua casa. A sua fortaleza.
E mesmo que agora doa, vai passar. Tudo passa. E o apartamento ficará. Aquele mesmo que Yúlia comprou sozinha. Pelo qual deu os últimos tostões. Que pagou durante anos, negando-se a tudo.
Esse apartamento não o entregará a ninguém. Nunca. Nem a inquilinos, nem à sogra, nem a quem quer que seja. Porque é a sua casa. E só sua.
