A manhã estava fria e cinzenta.
Quase não havia ninguém no cemitério militar. Apenas o vento agitava suavemente a erva entre as lápides brancas.
Um homem de casaco preto caminhava lentamente pelo caminho principal. Nas mãos, levava um ramo de flores amarelas e vermelhas.

Não tinha lágrimas no rosto, mas os seus olhos revelavam um cansaço profundo, como se carregasse dentro de si uma dor antiga — uma dor que nunca tinha partilhado com ninguém.
Parou diante de uma sepultura, tirou o boné preto e ficou alguns segundos a contemplar, em silêncio, o nome gravado na pedra.
— Bem, irmão, voltei outra vez — disse em voz baixa. — Como te prometi.
Ajoelhou-se, colocou cuidadosamente as flores junto à lápide e passou a mão sobre a pedra fria.
— Perdoa-me — continuou quase num sussurro. — Penso em ti todos os dias.
Nesse instante, ouviu-se uma gargalhada atrás dele.
Três jovens aproximavam-se lentamente pelo caminho. Um vestia um casaco caro, outro mascava pastilha elástica enquanto sorria, e o terceiro gravava tudo com o telemóvel.
— Vejam só, o velhote veio para aqui chorar — troçou o primeiro.
O homem nem sequer se virou.
— Sigam o vosso caminho, rapazes — respondeu calmamente.
— Olhem para ele, até sabe falar — riu-se o segundo. — Então, velhote, tens dinheiro?
O homem ergueu lentamente a cabeça, mantendo-se ajoelhado.
— Dêem-me apenas dois minutos — disse com serenidade. — Deixem-me terminar aqui, depois falamos.
— Dois minutos? — o arruaceiro aproximou-se mais. — Agora és tu que dás ordens?
— Estou apenas a pedir que respeitem a memória do homem que está aqui enterrado — respondeu. — Ele merece, pelo menos, um pouco de silêncio.
Os três olharam uns para os outros e voltaram a rir.
— Não queremos saber quem está aí enterrado. Não vai voltar à vida, e nós precisamos é de dinheiro — disse o primeiro de forma brusca. — Passa a carteira, o relógio e o telemóvel. Já.
O homem virou-se lentamente para eles.
— Não façam isso — disse num tom baixo. — Vão arrepender-se.
— Estás a ameaçar-nos? — o jovem agarrou-o pelo ombro. — Levanta-te, velho!
O homem não ofereceu resistência.


Limitou-se a olhar para a sepultura do amigo e murmurou:
— Estás a ver, irmão?… Nem aqui nos deixam descansar em paz.
Um dos rapazes tentou tirar-lhe a carteira do bolso, outro segurou-lhe o braço, enquanto o terceiro continuava a filmar e a rir.
— Então, herói, onde está o dinheiro? — provocou um deles.
Os três não faziam ideia de quem aquele homem realmente era, do que era capaz ou de como terminaria a tentativa de o humilhar e assaltar ali mesmo, no cemitério.
Nesse momento, o homem levantou-se lentamente.
Fê-lo sem pressa, com uma tranquilidade impressionante, como se todo o barulho à sua volta tivesse desaparecido.
A expressão do seu rosto mudou de imediato. O cansaço desapareceu, substituído por uma calma fria e controlada.
— Vou dizer isto pela última vez — afirmou. — Vão-se embora.
O arruaceiro atacou primeiro.
Mas o golpe nunca chegou a atingir o alvo.
Em poucos segundos, os três estavam caídos no chão, atordoados e incapazes de perceber o que tinha acontecido.
Um segurava o braço com dores, outro tentava recuperar o fôlego, e o terceiro deixara cair o telemóvel, olhando para o homem com verdadeiro terror.
— Quem… quem é você?… — sussurrou um deles.
O homem apanhou o boné do chão, limpou-lhe o pó e voltou a olhar para a sepultura.



— Vim apenas visitar um amigo — respondeu calmamente. — Mas, há muitos anos, comandei uma unidade que entrou em lugares que vocês nem sequer conseguiriam imaginar.
Os jovens ficaram em silêncio.
Ouviram-se passos a aproximar-se pelo caminho. Vários militares surgiram atrás deles. Um deles parou ao lado do homem e dirigiu-se a ele com respeito.
— Comandante, está tudo bem?
O homem assentiu com a cabeça.
— Agora está.
Ajoelhou-se novamente junto da sepultura, endireitou as flores e disse em voz baixa:
— Desculpa o barulho, irmão. Eu só queria passar aqui algum tempo em paz.
