O meu marido decidiu que o meu apartamento é um alojamento para o cunhado e a mulher dele

— Insultaste a mulher do meu irmão! A sério que tiveste pena de um simples fato? Ele é assim tão valioso?


— Sim, tive pena. É um fato caro. Não me lembro de tu alguma vez me comprares roupa para agora me vires apontar o dedo — respondeu a Tânia, num tom calmo.

— Além disso, a Lisa andou a mexer nas minhas coisas sem a minha autorização.
Tânia sempre considerou a sua casa uma fortaleza. O pequeno apartamento de dois quartos, comprado com um crédito à habitação, era o único lugar onde podia fechar a porta, respirar fundo e finalmente descansar.

Não precisava fingir ser alguém, nem usar máscaras — podia simplesmente ser ela própria.
Trabalhava como contabilista, trabalhava muito e ficava frequentemente até tarde a preparar relatórios. A casa era sempre o seu refúgio tranquilo.

Mas numa terça-feira absolutamente normal, quando Tânia subiu cansada ao seu andar, ouviu vozes atrás da porta. Achou estranho, pois ela e o marido não esperavam visitas.
Ao abrir a porta, ficou paralisada de surpresa.

— Oh! Taniúchka! — exclamou alegremente a mulher do primo do marido, a Lisa. — Viemos visitar-vos! Vamos ficar cá algum tempo, até comprarmos o nosso apartamento.
Ao lado estava o Kirill — o tal primo.
Atrás deles — duas malas, duas mochilas, sacos com comida e mais um saco com objetos estranhos, parecidos com equipamento desportivo.

Tânia piscou os olhos. Alucinações de cansaço?
Mas não.

A Lisa já andava pela casa de roupão, e o Kirill foi diretamente para a cozinha arrumar as compras no frigorífico, como se estivesse na sua própria casa. Tânia olhou, confusa, para o marido. O Maksim estava no corredor com um sorriso culpado.

— Ah… surpresa? — tentou ele fazer passar aquilo por uma piada.
— O quê…? — perguntou Tânia baixinho.

— Eles vão ficar connosco uma semaninha — disse Maksim rapidamente. — O Kirill decidiu finalmente mudar-se para a cidade. Estavam fartos de viver na aldeia, queriam outra vida. Eu pensei… nós não nos importamos, pois não?
“Nós?”
Tânia sentiu um nó gelado subir-lhe do peito até à garganta.

— Nem sequer me perguntaste nada…
Ele abriu a boca para responder, mas a Lisa interrompeu logo:

— Tânia, porquê essa reação? É só uma semaninha! Nós somos muito tranquilos. Eu limpo a casa todos os dias, o Kirill leva o lixo!
Somos inquilinos de ouro!

E, além disso… não somos estranhos.
Mas Tânia já percebia que tudo aquilo era uma ilusão e que a tal “semaninha” podia facilmente transformar-se em meses. Tal como tinha acontecido uma vez com a irmã.

Também a ela os familiares tinham pedido para ficar “só uma semana” — e, no fim, ela mal conseguiu pô-los fora ao fim de três meses.
Logo no segundo dia, Tânia percebeu que tinha caído numa armadilha. De manhã, a Lisa ocupava a casa de banho durante quarenta minutos.

O Kirill gostava de ver filmes à noite e, quando Tânia se levantava para ir trabalhar, ele dormia profundamente, como se nada fosse.
Afinal, ele não precisava de ir trabalhar.

E o mais irritante era que se comportavam como se estivessem num hotel.
Tânia sabia que já andava há muito tempo sem férias e com os nervos à flor da pele. Estava à espera ansiosamente dos dias de descanso, e agora ainda tinha mais um fator de stress.

No início de dezembro tinha tirado duas semanas de férias. Afinal, mesmo antes do Ano Novo ninguém deixa um contabilista ir de férias.
E então começou o mais interessante.

Na manhã do dia oito de dezembro, Tânia percebeu que não ia conseguir descansar nem dormir nessas duas semanas. Primeiro, o Maksim andava às voltas no quarto à procura da segunda meia. Depois apareceu a Lisa, que precisava de um batom.
E, a seguir, logo de manhã, o Kirill começou a fazer barulho na cozinha.

Tânia só queria desaparecer de vergonha e raiva. Parecia que estava ainda mais irritada do que antes das férias.
Quando o Maksim viu a expressão do rosto dela, desapareceu imediatamente, encontrando milagrosamente a meia na prateleira do armário. Mas a Lisa e o Kirill ainda não conheciam bem o temperamento da sua parente.

— Tânia, ainda bem que já acordaste. Serve-me aí um cafezinho — disse o Kirill, com um sorriso presunçoso.
— Isto aqui é um restaurante, por acaso?
— Oh, vá lá… — respondeu logo o cunhado, mudando de expressão.

— Estava só a brincar…
E, entretanto, a Elisabete lançou um olhar desagradado na direção da cunhada.

— Haja de ver como ela ainda vai cantar… — murmurou quase inaudivelmente, quando Tânia saiu da cozinha.
A cunhada foi para a casa de banho e, quando saiu, quase ficou sem fôlego de indignação ao ver a Lisa a sair do quarto com o seu fato bege, que Tânia usava com todo o cuidado apenas em dias festivos.

— Tu… o que é isto? — perguntou.


A Lisa sorriu.
— Só experimentei! Tens assim tanta pena?
— Sim, tenho. Eu não autorizei ninguém a mexer nas minhas coisas! Se o meu marido vos deixa ficar aqui, isso não quer dizer que tudo seja comum.

A Lisa sorriu com desdém e olhou para a cunhada de forma provocadora:

— Se quisermos, vivemos aqui o ano inteiro. Tu não nos vais fazer nada.
— Não sei se o Maksim vos contou, mas o apartamento é só meu. E só eu decido se vocês ficam aqui ou não. E, com essa atitude, chamo rapidamente quem for preciso. E aí já vão falar de outra maneira! — as palavras de Tânia foram duras e cortantes.
O Kirill levantou as mãos em sinal de apaziguamento, enquanto a Lisa apenas resmungou, contrariada.

— Tânia, somos da família… não é preciso isso — acrescentou ele, enquanto a mulher, de cara fechada, ia mudar de roupa.
— Percebe… a Lisa nunca teve roupas assim. Por isso é que quis experimentar. Não leves a mal, está bem? Queres que eu te faça agora um café e umas sandes?

Tânia limitou-se a acenar com a cabeça, e o Kirill já correu a cumprir o que tinha prometido. A Lisa saiu para o trabalho de manhã, e o Kirill só saiu perto da hora do almoço.
E, finalmente, ela pôde ficar sozinha, em silêncio. No trabalho já havia confusão e stress suficientes, e agora, também em casa, reinava o caos.

Tânia ainda conseguiu acalmar-se um pouco, sentada à mesa com uma chávena de chá quente, a saborear aqueles minutos de tranquilidade.

Parecia que, pelo menos por algumas horas, a sua paz tinha sido restaurada. Fechou os olhos e respirou fundo, adiando mentalmente todas as preocupações e irritações.

Mas, passadas apenas algumas horas, a chave rangeu na fechadura e o Maksim apareceu no corredor. Parecia cansado, mas os seus olhos ardiam de irritação.

— Tânia! — começou ele, mal atravessou a porta. — O que é que fizeste à Lisa?! Ela ligou-me para o trabalho a chorar! Como foste capaz de lhe fazer isso?!

A esposa levantou o olhar, tentando não demonstrar emoção.
— Maksim, deixa-me explicar tudo — disse calmamente.

— Mas antes quero que percebas uma coisa: eu queria descansar e preparar-me para os dias de trabalho difíceis antes do Ano Novo, e não viver neste caos.
— Insultaste a mulher do meu irmão! — a voz dele tornou-se mais alta.

— Não tinhas o direito de a tratar assim! A sério que tiveste pena de um simples fato? Ele é assim tão valioso?

— Sim, tive pena. É um fato caro. Comprei-o no ano passado, ainda antes do Ano Novo, e uso-o com muito cuidado.
Não me lembro de tu alguma vez me comprares roupa para agora me vires apontar o dedo — respondeu Tânia, num tom firme. — Além disso, a Lisa andou a mexer nas minhas coisas sem a minha autorização.

— E então? Qual é o problema? Ela também quer sentir-se bonita — ripostou o marido.
— E eu também, imagina só.
E, no entanto, parece que o nosso jogo é sempre só de um lado. As despesas da casa sou eu que pago, a roupa e a maquilhagem compro eu, as compras… também.

Fica a sensação de que sou eu que te sustento.
— Não venhas agora com essas frases pomposas.

O apartamento é teu, por isso és tu que pagas. Que queixas é que podes ter de mim?
— Sabes que mais? Nenhuma. A partir de agora já não vives aqui. Faz as malas e sai — fez uma pausa. — Ah, e já agora, leva também as coisas dos teus familiares.

— Depois não digas que não te avisei — sorriu Maksim com descaramento e foi começar a arrumar as coisas.
Num acesso de raiva, começou a juntar também as coisas da Lisa e do Kirill, preparando-se para sair.
Estava disposto a provar “quem manda aqui” por todos os meios, só para fazer pirraça à mulher.
Mas, nesse momento, tocaram à campainha.
Era a Lisa.

Ela ficou a olhar, estupefacta, para o Maksim, claramente sem perceber o que estava a acontecer…

Tânia não explicou nada. Limitou-se a esperar que o Maksim colocasse todas as coisas à porta e fechou-a, deixando a Lisa completamente confusa.

— O que é que fizeste?! — sibilou a Lisa, assim que a porta se fechou.

— Porque não tinhas o direito de a magoar… — murmurou o Maksim.

— Grande defensor me saíste tu… E agora, onde é que vamos viver, idiota?!

— Não faz mal. Havemos de arranjar alguma coisa.

Passou uma semana. A casa voltou a encher-se de calma e de limpeza. Faltavam apenas alguns dias para regressar ao trabalho, e a Tânia já estava em contacto ativo com a chefia. E então recebeu uma chamada. Era o Kirill.

— Tânia, posso encontrar-me contigo? — a voz dele soava cautelosa, quase envergonhada. — Preciso de falar contigo sobre uma coisa.

O Kirill esperava pela Tânia num pequeno café na esquina. Um espaço simples e acolhedor — percebia-se que era praticamente o único lugar que ele conhecia e onde se sentia à vontade.

Estava sentado numa mesa junto à janela, girando o telemóvel nas mãos e olhando repetidamente para a porta.

— Tânia! — levantou-se de um salto quando ela entrou e puxou apressadamente a cadeira para ela. — Obrigado por teres vindo… eu… eu preciso mesmo de te dizer uma coisa.

Ela sentou-se, sentindo a ansiedade crescer no peito. O Kirill parecia estranhamente nervoso — não como alguém que vinha pedir desculpa pelo incómodo.

Mais como alguém que guardara durante muito tempo um segredo terrível e finalmente decidira revelá-lo.

— Tânia… — começou ele, engolindo em seco. — Tenho de te dizer o que já devia ter dito há muito tempo. Tu… tu tinhas razão em ter-nos posto fora.

Ela franziu o sobrolho, sem perceber onde ele queria chegar.

— Eu também sabia de tudo — disse ele num suspiro. — Eu sabia sobre o Maksim e a Lisa. Eles… eles eram amantes.

O mundo diante dos olhos de Tânia pareceu oscilar ligeiramente. Por um instante, pensou que tinha ouvido mal.

— O quê? — perguntou baixinho.

O Kirill continuou, como se tivesse medo de que, se parasse por um segundo, já não conseguisse dizer o que tinha de dizer:

— Isto… já dura há muito tempo. Eles começaram ainda antes de vocês se casarem. A Lisa ia à cidade “visitar uma amiga”, mas na verdade… — respirou fundo.
— Encontrava-se com o Maksim. Eu pensei que tu soubesses. Ele dizia que… — o Kirill hesitou. — Ele dizia que vocês tinham uma relação aberta.

Tânia mal conseguiu manter a expressão. Por um segundo, pareceu-lhe que o coração tinha parado e, logo a seguir, bateu forte e dolorosamente no peito.

— Relação… aberta? — repetiu. — Ele… ele dizia isso?

O Kirill baixou o olhar, culpado.

— Tive medo de destruir a vossa família. Eu… fui um cobarde. Mas quando soube que tinhas posto o Maksim fora — que te defendeste e defendeste a tua dignidade — percebi que eu também tinha de dar um passo. Eu e a Lisa separámo-nos…

Tânia olhava para ele como através de um nevoeiro. Os lábios tremiam. Piscava cada vez mais depressa, tentando conter as lágrimas, mas, em determinado momento, a barragem rompeu-se. Lágrimas quentes correram-lhe pelo rosto.

— Tânia, perdoa-me. Perdoa-me — o Kirill sentou-se rapidamente ao lado dela e estendeu-lhe um lenço. — Eu pensei que tu soubesses. Se soubesse que não sabias, já te teria contado tudo há muito tempo… Desculpa.

Ela não conseguia responder. Apenas soluçava, apertando o guardanapo nas mãos. Dois anos de vida desmoronaram-se num único segundo. Tudo o que lhe parecera estável revelou-se uma mentira — suja, mesquinha e humilhante.

O Kirill dizia coisas para a acalmar: que o Maksim era um canalha, que a Lisa sempre fora assim, que a Tânia merecia coisa melhor. Mas Tânia ouvia-o como se estivesse atrás de um vidro.

Cerca de vinte minutos depois, finalmente conseguiu respirar fundo. Pediram o jantar — pratos simples, apenas para ocupar as mãos e os pensamentos. Falaram mais um pouco sobre o trabalho, sobre o futuro, sobre a vida na cidade. E depois despediram-se e foram para casa.

À noite, Tânia estava sentada junto à janela, a olhar para as luzes da rua. Percebeu claramente que já não queria viver num estado de incerteza, na mentira e na sujidade das traições alheias.

Abriu o computador portátil e apresentou o pedido de divórcio.

A Lisa ficou radiante — ingenuamente convencida de que metade do apartamento ficaria para o Maksim.

Já se imaginava a gabar-se diante dos familiares e das amigas por ter um pedaço de imobiliário “na cidade”. Mas a realidade deu-lhe um duro golpe: em dois anos, o Maksim não tinha investido um único cêntimo no apartamento.

E também não tinha carro — a Tânia tinha registado o automóvel novo em nome da mãe.

O Maksim ficou sem nada. A raiva deu lugar ao desespero e, depois, foi-se apagando enquanto ele fazia as malas e regressava à aldeia.

A Lisa aguentou ao lado dele exatamente seis meses. Assim que percebeu que não havia qualquer vantagem, arranjou logo outro pretendente — mais rico e mais fácil de controlar.

O Kirill, pelo contrário, floresceu. Arranjou emprego como engenheiro numa pequena empresa, começou a ganhar bem e conheceu uma rapariga calma e bondosa, chamada Olesia. Mais tarde, casaram-se.

Anos depois, um dia, Tânia encontrou o Kirill no supermercado, na secção de artigos de Natal.

Ele estava junto ao carrinho, com um casaco de boa qualidade, de postura firme. Ao seu lado, uma mulher simpática, com um sorriso doce. Nos dedos de ambos brilhavam alianças.

E, ao lado da Tânia, estava a sua filha de três anos, agarrada com força à mão da mãe.

— Tânia?! — o Kirill ficou genuinamente feliz. — Que coincidência! Tu… estás ótima.

— Tu também — sorriu a Tânia.

O coração dela já não doía.

Nem pelo passado, nem pelo Maksim. Vivia outra vida. Uma vida verdadeira.

Trocaram números de telefone e encontraram-se mais algumas vezes — apenas como bons conhecidos. O Kirill contou-lhe que o Maksim continuava na aldeia — trabalhava numa quinta e vivia com a mãe.

Sobre a Lisa, ninguém ouvia falar há muito tempo. Tânia apenas sorriu de lado. A vida tinha colocado cada um no seu lugar.

E, de repente, percebeu: a dor deles não tinha sido um fim. Tinha sido um começo. O começo de uma vida diferente, correta e honesta. E por esse caminho, cada um seguia agora a sua própria estrada — mas ambos verdadeiramente livres e felizes.

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