A carta que Claire ocultou entre o abandono da mansão Hawthorne não havia sido escrita exclusivamente para Richard.

A carta que Claire ocultou entre o abandono da mansão Hawthorne não havia sido escrita exclusivamente para Richard.

Richard Hawthorne observava o envelope como se ele tivesse vida própria.

A biblioteca estava tomada por um silêncio pesado e estranho. Emily permanecia junto à entrada, pálida e trêmula, segurando a carta envelhecida com as duas mãos. Victoria continuava próxima à poltrona de couro, o rosto endurecido pela irritação, embora até ela parecesse ter perdido parte da confiança.

Richard reconheceu a letra de Claire de imediato — as curvas delicadas, a assinatura inconfundível, cada traço que ele evitara encarar nos últimos três anos. Depois da morte da esposa, havia escondido tudo o que remetia a ela, imaginando que a dor seria mais suportável se ficasse confinada atrás de portas fechadas.

— Ela confiava em você? — perguntou a Emily.

— Confiava — respondeu ela em um fio de voz.

Com os dedos instáveis, Richard pegou a carta e rompeu o envelope.

As palavras de Claire o atingiram como um golpe.

Ela escreveu que, se ele estivesse lendo aquela mensagem, talvez finalmente começasse a perceber aquilo que a assustava enquanto ainda vivia. Disse que Richard era um homem bom, mas que sempre se refugiava no trabalho quando os sentimentos se tornavam difíceis demais de enfrentar. Seu maior medo era que, após sua partida, os filhos crescessem em uma casa grandiosa, porém desprovida de calor.

*Se eu morrer, meus meninos precisarão de afeto muito mais do que de dinheiro*, escreveu Claire. *Cuide deles, se puder. Amor não se define pelo sangue, mas por quem permanece quando ficar exige coragem.*

Os olhos de Richard se encheram de lágrimas.

Então ele chegou ao trecho seguinte.

*Se minha morte lhe parecer estranha, não despreze esse pressentimento.*

Seu coração quase falhou.

Claire relatava episódios inquietantes ocorridos nas últimas semanas da gestação: remédios mudados de lugar, documentos alterados, conversas interrompidas assim que ela entrava nos cômodos. Admitia que talvez estivesse assustada demais ou enxergando ameaças onde não existiam, mas pedia a Emily que permanecesse vigilante.

*Alguém perto de nós está mentindo.*

Richard baixou a carta devagar.

— Ela lhe entregou isso antes de morrer? — perguntou.

Emily assentiu, com os olhos marejados.

— Três dias antes.

— E você nunca falou comigo?

— Ela pediu que eu guardasse silêncio até ter alguma prova.

Victoria soltou uma risada seca, tratando tudo como delírio de uma grávida tomada pelo medo. Richard se voltou para ela com dureza.

— Vá embora.

Quando Victoria tentou resistir, a voz dele atravessou a sala como um trovão. O rosto dela se fechou em algo muito próximo do ódio.

Antes de sair, ela passou por Emily e sussurrou:

— Você acha mesmo que ele vai agradecer quando souber de toda a verdade?

Emily empalideceu.

Assim que Victoria partiu, Richard exigiu explicações. Emily revelou que ela encontrara a carta semanas antes e, desde então, passara a desconfiar de tudo. Victoria também diminuía sua origem, dizendo que “mulheres como ela” tinham o hábito de destruir famílias.

— Mulheres pobres — murmurou Emily.

Naquele instante, Richard compreendeu o quanto ela suportara para manter seus filhos protegidos. Emily não ficara ali por benefício ou ambição. Ficara porque os meninos precisavam de alguém que não os abandonasse.

Marcus interrompeu a conversa com uma notícia alarmante. As câmeras do portão haviam registrado Victoria deixando a propriedade acompanhada por um homem mais velho, de cabelos grisalhos. Richard o reconheceu sem hesitar.

— Dr. Daniel Mercer — disse, com o semblante sombrio.

O obstetra de Claire. O profissional que acompanhara sua gravidez e assinara o relatório após sua morte.

Naquela noite, a mansão repousou sob uma tempestade violenta, mas ninguém dormiu em paz. Os trigêmeos se recusaram a deixar Emily e permaneceram aconchegados ao redor dela no quarto das crianças, enquanto Richard os observava da porta. Pela primeira vez, ele admitiu a si mesmo que os filhos encontravam nela uma sensação de proteção maior do que nele.

Quando toda a casa mergulhou repentinamente na escuridão, Richard percebeu que algo estava errado. Os sistemas de emergência não ligaram. Logo depois, o som de vidro quebrando ecoou no piso inferior.

Alguém havia invadido a mansão.

Richard retirou uma arma de uma gaveta trancada e avançou pelos corredores escuros, enquanto Emily ficou com as crianças. Perto da biblioteca, ele avistou dois homens vestidos de preto. Tentou enfrentá-los, mas tudo saiu do controle em segundos. Tiros cortaram o silêncio. Um dos invasores caiu; o outro escapou e arremessou uma garrafa pelo corredor.

O fogo se alastrou pelo carpete.

As chamas avançaram com rapidez assustadora. Richard, Emily, Marcus e os meninos conseguiram fugir por uma saída dos fundos, correndo sob a chuva intensa. Enquanto a ala leste era consumida, Marcus revelou que o sistema de segurança havia sido desligado por alguém de dentro da casa.

Foi então que Ethan apontou para a entrada.

Do outro lado dos portões, um sedã preto permanecia parado. Um clarão rasgou o céu e iluminou o rosto do motorista.

Dr. Mercer.

Ele ficou observando a mansão em chamas por um instante aterrador antes de acelerar e sumir na noite.

Horas depois, a detetive Laura Bennett interrogava Richard enquanto os bombeiros vasculhavam os corredores destruídos. O invasor que sobrevivera declarou que não tinha sido contratado para assassinar ninguém. Sua missão era recuperar um arquivo conhecido como “a segunda carta”.

Richard voltou-se para Emily, perplexo. Ela garantiu que não sabia de nenhuma outra carta, mas Bennett insistiu, perguntando se Claire lhe entregara mais alguma coisa.

Emily ficou imóvel.

Por fim, confessou que, na noite da morte de Claire, ela tentara dizer algo com urgência pouco antes de os aparelhos falharem.

— O que ela falou? — perguntou Richard.

A voz de Emily vacilou.

— Ela disse o seu nome. Depois sussurrou: “Diga a Richard… ele não deveria saber.”

A frase atravessou Richard como gelo.

Antes que alguém pudesse reagir, Marcus entrou apressado no cômodo. Uma mulher havia aparecido no portão e se recusava a partir.

— Ela afirma ser irmã de Claire Hawthorne — anunciou ele.

Richard o encarou, atônito.

— Isso é impossível. Claire não tinha irmã.

Marcus hesitou antes de completar:

— Segundo ela, Claire mentiu para você.

O silêncio se aprofundou.

Então ele acrescentou:

— E ela também diz que os trigêmeos não são seus únicos filhos.

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