— Primeiro ganha dinheiro, e só depois é que o podes esbanjar para a direita e para a esquerda! Achas que eu não sei quem é que ganha o dinheiro na vossa família? Claro, quem gasta és só tu! E o meu Dimotchka ainda anda naquele chaço velho. Já lhe sugaste todas as forças!

Zhenya acordou cedo, com aquela antecipação especial, ligeiramente ansiosa, que surge antes de uma celebração. Lá fora ainda não tinha amanhecido, mas na sua cabeça já surgiam listas — quem come o quê, quanto é preciso cortar, que entradas preparar, onde arranjar ervas frescas e que bolo encomendar.
No dia seguinte era o aniversário do Dima e, embora ele garantisse que não queria nada de especial, Zhenya conhecia bem o seu homem: para ele, festa significava familiares mais próximos e brindes calorosos ao som dos copos a tilintar.
Ela não gostava de grandes banquetes — tudo aquilo deixava-a exausta. Zhenya preferia noites tranquilas em casa e idas a cafés. Mas no seu coração havia outro amor — o amor por Dima.
Esse amor, por vezes, fazia-a ceder: pela felicidade do marido, Zhenya concordava com coisas que, por si só, evitaria.
— Acho que só os familiares — disse ele, quando entravam no carro para ir às compras. — Com os amigos encontramo-nos depois.
Ele olhou para Zhenya e sorriu com aquele sorriso encantador ao qual ela quase sempre acabava por ceder. Ela sorriu de volta e, ao que parecia, já estava mentalmente a fazer a lista de compras.
— Está bem, só os familiares — respondeu ela. — Mas vamos fazer um menu decente. E eu não vou fazer o bolo.
Dima riu-se:
— Está bem. Eu trato do bolo, e tu do resto. Combinado?
— Combinado — concordou Zhenya.
Dmitri abriu a porta à esposa e ligou o carro. Durante todo o caminho até ao supermercado falaram não só dos produtos necessários, mas também do próximo fim de semana.
— Então no domingo vamos com o Kostik ao cinema ver desenhos animados? — sugeriu Zhenya.
— Sim, boa ideia. Acho que já estão a passar qualquer coisa de Ano Novo. Vou ver melhor.
A loja estava cheia — como sempre antes do fim de semana. Zhenya pegou num carrinho e dirigiu-se logo para a secção dos legumes: era preciso comprar ervas aromáticas e tomates para as entradas.
Examinava cuidadosamente cada ramo de endro, rodava cada tomate antes de o colocar no saco — tudo tinha de estar fresco e perfeito. Dima, por sua vez, passeava com entusiasmo entre as secções de vinhos e outras bebidas, escolhendo o que beber.
— Já trouxeste os palitos de caranguejo? — perguntou ele de repente, colocando o vinho no carrinho.
— Já — respondeu Zhenya com um sorriso: ele pensava mesmo em tudo, até nos simples palitos que nunca faltavam nas festas da sua infância.
Zhenya tinha tirado propositadamente o dia de sexta-feira para limpar bem o apartamento e preparar algumas coisas para a mesa festiva. À noite, quando regressaram, ela começou logo a cozinhar, enquanto Dima foi brincar com o filho aos legos.
A cozinha encheu-se de aromas: a cebola alourou, o alho libertou o seu leve perfume, a maionese misturou-se com o iogurte e o endro fresco. Zhenya cortava as saladas e distribuía as entradas por taças de porcelana. Gostava que tudo estivesse arrumado — isso dava-lhe uma sensação de calma interior e de controlo.
No dia seguinte, Zhenya acordou já sem a agitação da véspera — antes com uma concentração prática. Gostava de ter tudo organizado, cada prato no seu lugar, cada iguaria servida no momento certo.
Assim, à hora do almoço, o apartamento já estava perfeitamente preparado: as saladeiras estavam na mesa, as entradas dispostas nas taças e a carne assada repousava sob papel de alumínio, a absorver o próprio suco.
Dima passou a manhã a mexer nas colunas, a preparar a playlist: música suave de fundo, sempre apropriada. Kostik corria pela casa com um carrinho, organizando corridas entre a cozinha e a sala.
— Está tudo pronto? — perguntou Dima, espreitando pela porta.
— Está — respondeu Zhenya com segurança, ajeitando os guardanapos. — Só falta esperar por todos. Vou só retocar o batom e arranjar o cabelo.
— Para mim já és a mais bonita! — sorriu o marido. — E uma excelente dona de casa.
Os convidados não tardaram. A família chegou completa, como se tivesse sido combinado: primeiro os pais de Zhenya — Stepan Vladimirovich e Ludmila Ivanovna, com dois sacos bem arrumados, atados com fitas bege.
Depois vieram os pais de Dima, Svetlana Egorovna e Viktor Petrovich. A sogra entrou, como sempre, como se estivesse a inspeccionar a casa com uma luva invisível. Logo a seguir apareceram Egor, Sasha e a filha Lena — barulhentos, sempre sorridentes, trazendo o seu calor familiar. Abraços, beijos, felicitações — tudo encheu o hall de entrada com um caos acolhedor.
Pouco depois todos passaram para a sala, e a mesa ganhou vida: conversas, risos e brindes calorosos. Os homens falavam de trabalho, as mulheres discutiam discretamente os preparativos para o Ano Novo, e Kostik e Lenochka organizavam a sua própria festa no quarto das crianças.
Zhenya relaxou. Tudo corria simplesmente perfeito — exatamente como Dima gostava. Até ao momento de entregar os presentes. Os primeiros foram os pais de Zhenya. Ludmila Ivanovna deu uma leve palmada no ombro do marido enquanto ele entregava um envelope cuidadosamente preparado ao genro.
— Sabemos que andavas há muito tempo a pensar em comprar uma certa coisa… Esperamos que te seja útil.
Dima sorriu com sinceridade e carinho, agradecendo ao sogro e à sogra. Dentro do envelope estava um vale-oferta para uma grande loja de eletrónica. Stepan Vladimirovich partilhava o gosto do genro por tecnologia, por isso não falharam na escolha do presente.
Zhenya olhava para os pais com alegria — eles ofereciam sempre assim: sem ostentação, mas com significado. Ela adorava isso. Depois chegou a vez dos sogros.
Svetlana Egorovna estendeu um grande saco, atado com uma fita azul. E, antes que alguém pudesse espreitar o que estava lá dentro, a sogra declarou em voz alta, para que todos ouvissem:
— É um novo conjunto de roupa de cama. Muito bom e caro. Vocês, claro, não podem dar-se ao luxo de algo assim… Por isso decidi oferecer.


Por um momento, Zhenya ficou sem respirar. Svetlana Egorovna partia para o ataque como sempre — através de uma amabilidade humilhante.
O sorriso desapareceu do rosto de Zhenya. Não conseguia entender — porquê? Ela e Dima viviam bem. Ambos trabalhavam, ambos contribuíam para a família. E, ainda assim, a mãe dele parecia colocá-los ao nível de pessoas necessitadas.
Dima limitou-se a sorrir de forma constrangida e pousou o saco de lado. Ele já estava habituado; Zhenya, porém, nunca conseguia tolerar esse tipo de atitude.
A festa continuou. Os convidados comiam, riam, bebiam. As crianças corriam pelo apartamento, brincando à apanhada. Zhenya parecia ter-se acalmado — até chegar o momento do seu presente. Levantou-se e um leve tremor de nervosismo percorreu-lhe os dedos.
Ela não gostava de falar em público, mas queria fazer tudo de forma bonita.
— Dima… — começou ela, olhando para o marido. — Tu és o nosso apoio, o homem que está sempre ao nosso lado. És bondoso, forte e trabalhador. És o homem com quem eu sempre sonhei… E eu amo-te muito.
Falou longamente — com honestidade, de coração aberto. Falou de como ele a ajudou depois do parto, de como passava noites acordado com o Kostik, de como sempre a apoiava, mesmo quando ela própria duvidava de si. No fim, estendeu-lhe uma pequena caixa comprida.
Dima abriu-a e uma corrente de ouro brilhou à luz do candeeiro. Ele sorriu — amplamente, sinceramente, como uma criança que recebe o brinquedo tão desejado.
— Zhenya… É lindíssima. Obrigado, meu amor — levantou-se, aproximou-se dela e beijou-a ternamente.
Todos os convidados ficaram impressionados — o presente parecia caro, bonito e elegante. Todos — exceto Svetlana Egorovna. Ela fez uma careta, como se tivesse mordido meio limão. E, quando Dima colocou a corrente ao pescoço, a sogra declarou em voz alta:
— Não é correto oferecer presentes ao marido com o dinheiro dele próprio.
Zhenya piscou os olhos. As palavras atingiram-na como um murro no estômago.
— Desculpe… como? — perguntou ela com calma, embora por dentro tudo começasse a ferver…
A sogra não se calou. Pelo contrário, cruzou os braços ao peito com um ar ainda mais altivo e continuou:
— Primeiro ganha dinheiro, e só depois é que o podes esbanjar para a direita e para a esquerda! Achas que eu não sei quem é que ganha o dinheiro na vossa família? Claro, quem gasta és só tu! E o meu Dimotchka ainda anda naquele chaço velho. Já lhe sugaste todas as forças!
Zhenya sentiu algo apertar dolorosamente no peito. Nunca tinha reivindicado o papel de “principal provedora”. Ela e o marido sempre foram uma equipa. E ela ganhava bem — o suficiente para oferecer um bom presente ao marido.
— Eu… ganho bem — disse Zhenya com firmeza, sentindo o silêncio na sala tornar-se denso. — E posso perfeitamente comprar uma corrente de ouro ao meu marido. E, além disso, que diferença faz quanto eu ganho? Isso não lhe diz respeito.
Mas Svetlana Egorovna apenas bufou, satisfeita consigo mesma:
— Claro, claro. Diz o que quiseres, mas eu vejo bem. O meu filho está sempre em último lugar para ti!
Nesse momento, Dima levantou-se. No seu olhar não havia raiva nem irritação — havia segurança. Aquela mesma segurança masculina que Zhenya mais apreciava nele.
— Mãe — começou ele calmamente — nós ainda não queríamos dizer nada, mas… comprámos um carro novo.
Todos levantaram a cabeça. Até Egor ficou suspenso sobre o prato de salada, de boca entreaberta.
— Andámos a poupar durante muito tempo — continuou Dima. — Para não termos de fazer um crédito. Ofereci a mim mesmo e à minha família este presente de aniversário.
Svetlana Egorovna pareceu afundar-se na poltrona. Por um instante, os seus lábios tremeram, procurando um novo argumento para a crítica — mas não conseguiu dizer uma única palavra.
Stepan Vladimirovich tossiu discretamente para o punho, e Ludmila Ivanovna sorriu com satisfação:
— Muito bem, genro! Isso sim é uma decisão acertada!
Zhenya respirou fundo. Aos poucos, tudo dentro dela começou a relaxar. Olhou para Dima com tanta ternura que o rosto da sogra se torceu perante a cena “demasiado doce”.
Zhenya apenas sorriu de lado — não por despeito, mas por alívio. A festa estava salva e, mais importante ainda, Dima tinha finalmente colocado a mãe no seu devido lugar, de forma clara e tranquila.
Quando os convidados começaram a despedir-se, o ambiente regressou gradualmente à normalidade. Stepan Vladimirovich apertou longamente a mão do genro — como se quisesse transmitir a sua aprovação sem palavras.
— Muito bem, Dimka — repetia ele, como se estivesse sempre a assimilar novamente o que ouvira. — Muito bem mesmo. És um homem a sério!
Dima mostrava-se modesto, mas via-se que aquela atenção lhe agradava. Ludmila Ivanovna abraçou Zhenya e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Está tudo ótimo entre vocês. Não ligues a comentários desnecessários. Essa corrente é um excelente presente. E tu és uma excelente esposa.
Zhenya quase chorou.
Quando os sogros se foram embora, Svetlana Egorovna nem sequer olhou para a nora. Contornou-a como se Zhenya fosse parte do mobiliário.
Limitou-se a dizer, sombria:
— Bem… parabéns mais uma vez, filho.
E saiu imediatamente pela porta. Já o sogro ficou um pouco mais.
Aproximou-se de Dima, deu-lhe uma palmada no ombro e estendeu-lhe a mão com um calor algo desajeitado, mas sincero:
— Perdoa a tua mãe… sabes como ela é. Mas o carro é fantástico. Parabéns aos dois!
Dima assentiu. Não gostava de conflitos, mas naquele dia fez o que considerava certo.
Passaram-se três semanas.
Pelo Ano Novo, a família foi cumprimentar todos os parentes. Zhenya tinha preparado com antecedência uma lista de presentes — adorava organizar tudo.
Kostik estava encantado com as árvores de Natal nas ruas e as luzes brilhantes nas montras. Dima não escondia o orgulho ao chegar com o novo crossover a casa de cada familiar. E finalmente chegou a vez da sogra.
Primeiro apareceu Svetlana Egorovna — de casaco bem abotoado. Saiu do prédio, viu o carro… e ficou imóvel.
Os olhos arregalaram-se, a boca abriu-se ligeiramente — mas rapidamente se recompôs. Apertou os lábios, endireitou-se e até tentou fingir que não via nada de especial.
— Isso é… o vosso carro novo? — perguntou, tentando disfarçar o tremor na voz.
Dima assentiu calmamente. Svetlana Egorovna voltou a observá-lo de todos os ângulos — era novo, limpo e imponente. E, sobretudo, comprado sem crédito.
Ela não aguentou e disparou:



— Pois claro… Se a tua mulher não fosse tão gastadora, talvez já tivesses comprado um carro aos teus pais!
Zhenya sentiu o sangue subir-lhe às faces — não de vergonha, mas de indignação. Mas nem chegou a abrir a boca.
Dima respondeu de imediato, colocando a mãe no seu lugar:
— Mãe, se a Zhenya não trabalhasse também, nós nem sequer teríamos este carro. Nem nenhum outro.
Fez uma pausa, firme.
— Ela contribuiu com tanto trabalho e dinheiro quanto eu. Esta é uma compra nossa. E já está na altura de deixares de fazer comentários críticos que não têm fundamento nenhum.
Svetlana Egorovna quis acrescentar algo, mas as palavras ficaram-lhe presas na garganta. Engoliu literalmente o desagrado — e, pela primeira vez em muitos anos, ficou em silêncio. Depois virou-se, contrariada, e entrou em casa.
Viktor Petrovich murmurou baixinho:
— Vocês… são uns valentes, rapazes. De verdade.
E convidou-os a entrar.
Depois dessa conversa, Svetlana Egorovna nunca mais voltou a falar de dinheiro na família do filho. Desde então, a sua atenção voltou-se para o filho mais velho — Egor.
Naquela mesma noite, já em casa, Zhenya preparou uma pequena mesa: salada russa numa taça de vidro, tangerinas, uma travessa de carnes frias e uma garrafa de champanhe que ela e Dima tinham comprado no dia anterior.
Kostik adormeceu rapidamente — cansado da viagem, dos doces e das emoções.
Zhenya e Dima ligaram um velho filme de Ano Novo — aquele que adoravam desde os primeiros anos do relacionamento. Deitaram-se no sofá da sala, beberam champanhe e riram-se das cenas já tão familiares.
Lá fora, a neve caía suavemente, cobrindo a cidade com um manto macio. Zhenya olhou para o marido e pensou que tudo — as festas, as preocupações e até aquelas conversas desagradáveis — tinha valido a pena por uma noite assim, pela família e pelo amor.
